Pois, mais que um signo de uma
linguagem escrita, a alteração do desenho da pessoa idosa curvada com
bengala, para uma pessoa ereta com a impressão de caminhar, é uma
convocatória para pensarmos o modo como autorizamos, individual e
coletivamente, o modo de pensar, sentir e agir com relação as pessoas
idosas por meio da propagação de estereótipos, preconceitos e
discriminação.
Maria Caroline Waldrigues (*)
Você já deve ter visto aquele desenho
com uma pessoa de bengala, representando os idosos no trânsito. Essa
maneira de olhar para os idosos no país, precisa ser repensada e uma das
mudanças está chegando através do Conselho Nacional de Trânsito
(CONTRAN) na sinalização que regulamenta as áreas de segurança e de
estacionamento específicos de veículos, pela resolução nº 965 de maio de
2022.
A resolução e seus anexos tratam sobre o
conceito de área de segurança de estacionamento para pessoas com
comprometimento de mobilidade, das credenciais para estacionamento de
vagas para pessoas idosas. Além disso, detalham minuciosamente, como os
municípios e os órgãos de trânsito responsáveis devem cumprir as
determinações, dentro de um prazo de 5 anos, a partir da data que
passará a vigorar a nova legislação.
Poderia discorrer sobre várias temáticas
de pertencimento desta resolução, como por exemplo, a questão de
pensarmos sobre a urgente necessidade de discussão e ampliação do
projeto ‘cidade amiga da pessoa idosa’, que hoje conta com 897 cidades
participantes no mundo, e destas, apenas 32 cidades, do total de 5.565,
são brasileiras e certificadas como ‘Amigas da Pessoa Idosa’, pela
Organização Mundial da Saúde (OMS).
Mas não quero tratar sobre este ponto de
vista, penso que o aspecto crucial e pujante é a possibilidade de
abertura de diálogo e discussão da alteração do desenho figurativo
estilizado, o pictograma que representa a pessoa idosa na resolução em
tela.
Pois, mais que um signo de uma
linguagem escrita, a alteração do desenho da pessoa idosa curvada com
bengala, para uma pessoa ereta com a impressão de caminhar, é uma
convocatória para pensarmos o modo como autorizamos, individual e
coletivamente, o modo de pensar, sentir e agir com relação as pessoas
idosas por meio da propagação de estereótipos, preconceitos e
discriminação.
Segundo a Organização
Panamericana de Saúde (OPAS), em seu Relatório Mundial sobre o Idadismo
(2022), quando o fator cronológico é utilizado para ‘prejudicar, fazer
injustiça ou arruinar a solidariedade entre as gerações’, denominamos
isto de ‘idadismo’, ou sinônimos como ‘etarismo’ ou ‘ageísmo’, que nada
mais é que a própria discriminação com as pessoas idosas, e que tem
impacto significativo no curso de vida, levando a exclusão, a
marginalização e a violência, além de prejudicar o desenvolvimento de
indivíduos e comunidades.
Em um Brasil, com apressada transição
demográfica, com cerca de 33 milhões de pessoas com 60 anos ou mais, que
corresponde a 15% da população segundo os dados da Pesquisa Nacional
por Amostra de Domicílio (PNAD) de 2022, com projeções temíveis de 58
milhões de pessoas idosas para o ano de 2060, cerca de 25% da população,
necessitamos urgente, como coletividade, pensar nos desafios que
já estão se estabelecendo, seja no campo social, político, econômico ou
da saúde, e em especial, no combate ao idadismo.
(*) Maria Caroline Waldrigues,
enfermeira, mestre em Educação, membro DCEG/ABEN-PR, coordenadora dos
cursos de Tecnologia e Bacharelado de Gerontologia Escola Superior de
Saúde Única (ESSU) da Uninter.
Claudia
Kimie Suemoto explica que a demência, que tem no Alzheimer sua forma
mais comum, resulta de uma variedade de doenças e lesões que afetam o
cérebro
Jornal da USP- Sandra Capomaccio
Dados da OMS estimam que até 2050 o número de pessoas acometidas com
algum tipo de demência deve triplicar, subindo para 150 milhões de
indivíduos.
A demência e o Alzheimer acabam se confundindo pelo esquecimento de
fatos que comprometem o dia a dia de pessoas que sofrem por essa perda
cognitiva, segundo a professora e geriatra Claudia Kimie Suemoto, da
Disciplina de Geriatria do Departamento de Clínica Médica da Faculdade
de Medicina da USP. Ela explica que “a demência resulta de uma variedade
de doenças e lesões que afetam o cérebro. A doença de Alzheimer é a
forma mais comum de demência e pode contribuir entre 60% e 70% dos
casos”. A demência não afeta exclusivamente pessoas mais velhas. A OMS
estima que até 9% dos casos tiveram início precoce (antes dos 65 anos).
A geriatra diz ainda que a perda funcional caracteriza a fase da
demência, que pode ser leve, moderada ou grave. Segundo relatório da
Organização Mundial da Saúde (OMS), 55 milhões de pessoas vivem com
demência no mundo. A população deve se preparar de forma saudável para
enfrentar a sua velhice e saber que vários fatores de risco podem ser
evitáveis. Entre estes, a baixa educação, perda auditiva, hipertensão,
obesidade, tabagismo, depressão, isolamento social, inatividade física,
diabetes, consumo excessivo de álcool e poluição do ar.
A especialista da USP alerta que, além da população, a saúde pública
também deve fazer a sua parte. “É muito importante que os gestores de
saúde tenham uma política de diagnóstico e cuidados com essas pessoas e
familiares envolvidos.”
Cuidados especiais
A pessoa com demência – nas fases moderada e grave – sempre vai
precisar de cuidados especiais. Em países como o Brasil, em que é grande
a desigualdade social, o cuidador normalmente é um familiar, o que
compromete ainda mais a renda da casa. “Esse cuidador familiar é alguém
da família que não trabalha ou que deixa de trabalhar”, avalia
Claudia. Em caso de contratação de uma pessoa de fora, é importante ter
referências e acompanhar de perto esse atendimento. A cura da demência
ainda está longe de ocorrer, mas a ciência e a pesquisa avançam a cada
ano e isso pode ajudar a diminuir o quadro da doença em um curto prazo
de tempo.
O Brasil tem desenvolvido políticas públicas voltadas para a demência
no Brasil e a Universidade de São Paulo tem focado na prevenção da
doença. “Desde 2023, as políticas públicas têm avançado no País e a USP
tem focado na prevenção com ações que estão em relatório emitido pela
instituição”, finaliza. O relatório brasileiro mostra que 80% dos casos
de demência no Brasil ainda não foram diagnosticados, ou seja, a pessoa
tem a doença mas não recebe os cuidados necessários, o que impacta
sobremaneira a saúde pública do País. Além disso, em junho de 2024 foi
aprovada uma lei de cuidados e proteção à pessoa com demência no Brasil.
Com 79 anos de idade, Alexandre Kalache completa, em 2025, 50 anos de estudos sobre a longevidade e o envelhecimento.
Larissa Roso – Role, de Porto Alegre para a BBC News Brasil
O médico gerontólogo carioca é
especialista em um tema que, segundo ele, seus pares ainda resistem em
desvendar — dando preferência a especialidades como a obstetrícia e a
pediatria, em um país com taxas de fecundidade decrescentes.
A população mundial está
vivendo cada vez mais, e o Brasil, especialmente, tem um grande problema
com que lidar: os brasileiros estão envelhecendo,
e rápido, antes que o país tenha dado certo e se tornado um lugar mais
justo para se viver, afirma Kalache, presidente do Centro Internacional
de Longevidade Brasil e codiretor do Age Friendly Institute, nos Estados
Unidos.
Como
consequência, as pessoas estão vivendo por mais tempo em condições
ruins, sem os recursos para as necessidades básicas ao longo da vida e,
principalmente, na velhice — um quadro que o deixa “muito triste”, diz
Kalache em entrevista à BBC News Brasil.
O gerontólogo defende
políticas públicas direcionadas aos idosos — ou, no mínimo, que seja
respeitado o Estatuto do Idoso, que já tem mais de 20 anos.
Para ele, essas iniciativas
devem ter continuidade, independentemente de mudanças de governos, e
incluir a criação de mais instituições de longa permanência para idosos —
conhecidas popularmente como “asilos” ou “casas de repouso” — que sejam
públicas.
Aliás, ele refuta o tabu com a institucionalização de idosos,
dizendo que a obrigatoriedade moral dos mais velhos ficarem com
parentes em casa frequentemente recai sobre mulheres e famílias com
poucos recursos.
“A única forma de lutar contra
o estigma é esclarecer para a população: não tenha vergonha. Se você
precisa institucionalizar essa pessoa mais idosa, é porque você não está
conseguindo”, defende Kalache.
Outra iniciativa fundamental,
segundo ele, é a conscientização sobre como tornar a vida mais saudável,
em qualquer fase, o que permitirá um melhorenvelhecimento.
“Como preparar os jovens
de hoje para que deem certo, para que possam chegar a 2050, 2060, 2070
sendo viáveis? Envelhecimento é gerúndio, nós estamos envelhecendo, e
por isso as oportunidades para os mais jovens que almejam ser os idosos
de amanhã devem estar garantidas desde a juventude”, afirma.
“Costumo dizer aos jovens: se você quer chegar bem aos 90 ou 100 anos, comece já.”
Confira, a seguir, os principais trechos da entrevista.
Pessoas em fila para receber doação de comida no Rio durante a pandemia;
Kalache aponta que período evidenciou desigualdades sociais, incluindo
as que afetam os idosos. Getty Image
Alexandre Kalache –
Os países que já envelheceram são os países desenvolvidos. Eles tiveram
muito mais tempo para se preparar para o envelhecimento. Na
França, por exemplo, foram necessários 145 anos para dobrar de 10% para
20% a proporção de pessoas idosas, de 1845 a 1990. O que era a França
nesse período? Uma potência colonial. Comparada com os outros, um país
muito mais rico, que pouco a pouco foi melhorando o nível educacional, o
nível de infraestrutura, de água potável, de educação, de nutrição
etc. Aproveitou, ao longo do
século 20, as grandes conquistas tecnológicas, tipo vacinas,
antibióticos, detecção precoce das doenças. E, pouco a pouco, eles foram
colocando políticas que pudessem oferecer às pessoas mais velhas
serviços como atenção primária, moradias melhores, inovações em
transporte público. Tudo isso tem um efeito na qualidade de vida com que
as pessoas vão envelhecer. O
Brasil, em comparação, vai dobrar de 10% para 20% a população de idosos
em 19 anos. O que eles fizeram em sete ou oito gerações, nós vamos
fazer em uma. E sem os recursos, porque a maioria da população,
infelizmente, não deu certo ainda, continua em pobreza. (…)
O país bombando, vendendo
alimento para tudo quanto é lado do mundo, alimentando os porcos da
China, sem ter capacidade de alimentar a sua população. São 33 milhões de famintos, 56% da população com insegurança alimentar. Isso me revolta e me assusta, porque o envelhecimento não vai dar sopa.
Quem tem 35 anos hoje, terá,
em 2050, 60. Uma população adulta precarizada, que teve péssima educação
pública, que andou para trás em vez de melhorar. Então isso me assusta,
me deixa muito triste.
Nós precisamos de um
compromisso do Estado de assumir aquilo que está escrito há 22 anos no
Estatuto do Idoso. Precisamos fazer com que as pessoas possam envelhecer
bem onde sempre moraram. Precisamos fazer com que haja uma cultura do
cuidado.
E o Estado, faz o quê? Joga para a família. A família cuida. Não, a família só pode cuidar se ela estiver sendo cuidada.
A imensa maioria dos cuidadores é no feminino: são cuidadoras, são mulheres que passaram a vida cuidando dos netos, depois dos pais, dos avós, do sogro, da sogra, do marido. E quando elas precisam de cuidado, de repente não têm ninguém que cuide delas.
A imensa maioria dos cuidadores é no feminino: são cuidadoras, são mulheres que passaram a vida cuidando dos netos, depois dos pais, dos avós, do sogro, da sogra, do marido.
E quando elas precisam de cuidado, de repente não têm ninguém que cuide delas.
Na minha infância, eram poucos
os idosos, e esses idosos contavam com um número imensurável de
mulheres que não tinham ingressado na força remunerada de trabalho e
podiam estar ali cuidando.
Aqueles idosos que ficavam
doentes duravam pouco. Em dois, três anos, ia tudo para o beleléu. Agora
você tem uma doença qualquer que gere dependência e você pode viver com
ela — por conta da tecnologia ou de novas formas de tratar essas
doenças crônicas complicadas, seja um diabetes, seja uma hipertensão —
por 15, 20, 30 anos.
BBC News Brasil – Quando se torna inevitável a institucionalização do idoso? Ainda há muito estigma quanto a isso?
Kalache – O estigma é
imenso. Isso é cultural, é social. A família acha que tem, sim, a
obrigação, e o Estado corrobora isso: fica com a família.
Que família? De que família
nós estamos falando no caso de uma mãe solteira, de uma mãe que vive só
com seus filhos, cujo pai já abandonou, alcoolizado ou assassinado?
Nós temos um número recorde no
país, é como se estivéssemos em guerra, são mais de 46 mil homicídios,
na sua grande maioria de jovens negros e que deixam essas famílias à
deriva.
Além do mais, não existe uma renda regular para que essa família seja viável.
É fundamental que a gente
confronte o estigma porque muitas vezes a institucionalização é a melhor
resposta. A única forma de lutar contra o estigma é esclarecer para a
população: “Não tenha vergonha. Se você precisa institucionalizar essa
pessoa mais idosa, é porque você não está conseguindo.”
O fardo de cuidar de alguém com Alzheimer por
10 anos não é nada equivalente a cuidar de um bebê — isso dura dois,
três, quatro, cinco anos, e pouco a pouco a criança vai adquirindo mais
independência e autonomia.
Se cuidar de alguém que começa
com um processo demencial, são um, dois, cinco, dez anos… Você acaba
absolutamente esgotado, e as repercussões para a sua saúde física e
mental são imensuráveis.
Abaixo este estigma. Para
muita gente, a melhor solução é poder institucionalizar, mas tem que
fazer todo o possível para que essa instituição ofereça qualidade.
Crédito,Getty Images ‘É fundamental que a gente confronte o estigma
porque muitas vezes a institucionalização é a melhor resposta’, defende
Kalache
BBC News Brasil – Em
relação a geriatrias, o senhor acredita que o Estado deveria fiscalizar
melhor as instituições privadas? Deveria haver maior oferta de lugares
públicos para abrigar idosos?
Kalache – Vivemos com
regulamentos, com regras que não são cumpridas, não são fiscalizadas, e
tudo pode acontecer. Avolumam-se os casos de todo tipo de infração dos
direitos das pessoas idosas mais precarizadas que vivem nessas
instituições e não há uma fiscalização.
Elas são pessoas extremamente
vulneráveis, considerando-se a alimentação, as condições físicas, o
volume de pessoas que estão institucionalizadas acima da capacidade da
instituição.
Há instituições nas periferias
que vivem “ao deus-dará” e visando muito ao lucro. É fundamental que o
Estado exerça essa função que é sua e está estipulada no Estatuto do
Idoso.
Por outro lado, deve haver uma
oferta de lugares públicos para idosos. Contamos pouquíssimas
instituições públicas, em geral de baixa qualidade, com um volume muito
grande de pacientes com patologias múltiplas e pouca supervisão médica.
Aliás, isso também é
estipulado em relação às instituições privadas, que muitas vezes têm um
médico que passa uma vez por semana, meia hora.
Mas as instituições públicas
são necessárias porque temos cada vez mais pessoas que não têm família,
ou que a família mora longe, ou que a família não tem recursos, ou que a
família está fragmentada, que mal tem para as despesas essenciais com
os outros membros.
BBC News Brasil – O envelhecimento na pobreza é muito duro. Pode comentar?
Kalache – Envelhecer
não é uma coisa mágica, que você de repente chega aos 60 anos, 65… É um
processo ao longo da vida, em que você vai acumulando desvantagens,
falta de respeito aos seus direitos, falta de oportunidades de uma vida
digna, de trabalho, de moradia, de mobilidade.
E isso tudo contribui para que o envelhecimento no Brasil seja mau e precoce.
A pessoa chega aos 55, 60 anos
com todo tipo de ziquizira que alguém que mora no Jardim Paulista ou no
Alto Leblon, no Rio, não espera ter 25, 30 anos mais tarde.
Envelhecimento é gerúndio, nós
estamos envelhecendo, e por isso as oportunidades para os mais jovens
que almejam ser os idosos de amanhã devem estar garantidas desde a
juventude.
Costumo dizer aos jovens: se você quer chegar bem aos 90 ou 100 anos, comece já.
BBC News Brasil – Como se pode envelhecer bem em um país tão desigual?
Kalache – Por conta da desigualdade, a gente entrou na onda dos países mais desenvolvidos, falando da “economia prateada”.
A economia prateada pode
funcionar para 15% da população, que investem, badalam, fazem cruzeiros,
fazem turismo, estão consumindo. Mas a maioria da população mal tem um
teto em cima da cabeça, comida na prateleira e aquele dinheirinho no
bolso para comprar os remédios que o SUS ainda não está fornecendo.
A gente viu isso na pandemia.
Cada vez que morria uma pessoa idosa, aquela família pobre entrava na
miséria, porque a única renda regular que entrava para a família era a
da pensãozinha daquele senhor, daquela senhora. Não é à toa que nós
somos 3% da população mundial e 11% das mortes.
A primeira coisa que a gente
tem que fazer é cair na real: o Brasil está envelhecendo, envelhecendo
muito rápido antes de ter dado certo.
O único segmento da população
que está crescendo, desde 2000, com as taxas de fecundidade tão baixas, é
o segmento de pessoas com mais de 60 anos. Este século será
caracterizado pela capacidade que nós teremos de nos adaptar a esse
envelhecimento tão rápido.
O século passado se
caracterizou pela grande conquista social que é poder viver mais, não
como exceção dos mais ricos e da elite, mas como regra.
Apesar de tudo, o brasileiro
ousa envelhecer. Como preparar os jovens de hoje para que dêem certo,
para que possam chegar a 2050, 2060, 2070 sendo viáveis?
Tenho 79 anos. Não é a idade
que me impede de continuar trabalhando, produzindo, gerando emprego,
pagando imposto. Mas por que eu dei certo? Porque eu, felizmente, tenho
saúde, tenho informação, posso colocar em prática, posso comer brócolis
sem medo de que, se eu comer brócolis na primeira semana do mês, vai me
faltar açúcar e farinha na mesa na última semana.
BBC News Brasil – O senhor já disse que temos que celebrar o envelhecimento, apesar de tudo isso.
Kalache – Porque
envelhecer é bom, morrer cedo é que não presta. Quem é que prefere
morrer cedo? Já fiz essa pergunta a milhares de plateias, e todo mundo
quer envelhecer. Mas envelhecer com saúde, com dignidade, com seus
direitos respeitados.
Não quero que ninguém seja
bonzinho para mim. Não “porque eu sou um velhinho”, não. Quero que me
respeitem como respeitam todos os cidadãos. É uma questão de cidadania,
mas as necessidades vão mudando à medida que a gente atravessa as etapas
ao longo da vida.
BBC News Brasil – As pessoas ainda negam muito a velhice, ou negam menos do que já negaram?
Kalache – Vejo as duas coisas. Vejo inclusive uma coisa saudável.
Trabalho muito com jovens
abaixo de 30 anos. É uma estratégia da minha parte: quero aprender com
eles. Eu não tinha nem televisão quando era pequeno, eu era analógico.
Quero estar cercado de gente que possa me ensinar. Essa troca é muito
saudável.
Há jovens que estão começando
realmente a perceber o mantra que sempre repito: para chegar bem [à
velhice], comece já. E quanto mais cedo melhor, nunca é tarde demais.
Você vê gente de 20, 25, 30
anos já preocupada com a dieta, já parou de fumar, está bebendo menos…
Você precisa, claro, de recursos para poder fazer as opções mais
saudáveis. Você precisa de políticas públicas para sustentar esse seu
esforço pessoal.
Você precisa também não só de
capital de conhecimento, de saúde… Você precisa de um capital social,
ter mais amigos. Essa história de ter 3.650 amigos no Facebook não vai
te resolver nada na hora que precisar. Você precisa do olho no olho e do
toque na pele.
Tudo isso é importante, e as
pessoas mais jovens estão começando a perceber que ainda tem uma herança
muito pesada do preconceito — e as pessoas mais idosas, muitas vezes,
internalizam esse preconceito: “Eu não sirvo mesmo para nada”.
BBC News Brasil – O senhor diz que o idadismo ou etarismo atinge todo mundo. Como combatê-lo?
Kalache – Tem que
combater desde a infância. Você tem que introduzir o tema do
envelhecimento não só na família, e às vezes a família não está equipada
e ela própria é idadista, como também é sexista, machista, capacitista.
Você tem que arrancar os botões desses preconceitos que foram inseridos
lá no fundo.
Você pega, por exemplo, estudantes de Medicina.
Temos um déficit de 28 mil geriatras: temos 2 mil credenciados,
deveríamos ter 30 mil. Isso já mostra que tem alguma coisa errada.
Apenas 10% das faculdades de Medicina têm uma disciplina chamada
geriatria.
Você já vem com um ranço
preconceituoso contra o idoso e, na sua formação como médico, não
aprende que tudo muda com o envelhecimento: a fisiologia, a
fisiopatologia, a farmacologia, a dosagem dos medicamentos, a interação
entre eles, a própria apresentação das doenças…
Se você é um neurocirurgião ou
um cirurgião cardiovascular, cada vez mais vai praticar medicina em
pessoas idosas, porque esse grupo está crescendo.
Aí os residentes médicos optam
por obstetrícia. Há 25 anos a nossa taxa de fecundidade está abaixo da
reposição. Ou escolhem pediatria, mas não tem mais bebê nascendo, não
tem criança, não tem adolescente, não tem adulto jovem.
Cerca de 0,5% escolhe a
geriatria. Imagina se você se formar em 2025 e trabalhar por 54 anos —
que é quantos anos eu tenho de formado. Você vai lidar em 2068 com uma
população muito idosa, que você viu envelhecer, e você não está
preparado para isso.
BBC News Brasil – Por que a
aposentadoria é um susto para tanta gente? Como esse período deveria
ser tratado e preparado na vida profissional?
Kalache – As empresas,
quando falam sobre preparar para a aposentadoria, falam de finanças e
pouco mais do que isso. Você não tem uma política abrangente, com a qual
realmente possa preparar, e que essa aposentadoria seja gradual — que
você chegue aos 60 anos e possa ter a opção de trabalhar não cinco dias
por semana, que você possa reduzir para 30 horas por semana em quatro
dias, que você continue produtivo, repassando a sua experiência…
Tem a importância do
aprendizado ao longo da vida. Por exemplo, pense em um grande cirurgião.
Talvez com 65, 70 anos você não tenha mais a mesma destreza, mas você
pode ser um grande mentor.
O filme Um Senhor Estagiário,
com Robert de Niro, é fantástico. Um aposentado, em Manhattan, vê, por
acaso, um anúncio de “procuram-se estagiários com mais de 60 anos”. Ele
se apresenta e é escolhido.
Ele chega na empresa, ninguém
presta muita atenção nele, ele se senta diante de uma escrivaninha,
cheia de apetrechos tecnológicos. De mansinho, ele vai introduzindo
novos conceitos, mudando certas atitudes, agregando. Aquela companhia
não deixou de ser rápida, não deixou de ser produtiva, mas passou a
incorporar valores que os jovens não tiveram tempo de absorver ou
aprender.
Para essa pessoa idosa, ter um emprego é uma tremenda vantagem.
Ela quer continuar empregada e faz de tudo para se manter empregada. A
fábrica da BMW, na Alemanha, percebeu que a idade média dos seus
funcionários estava aumentando e decidiu substituir o chão de concreto
por piso de madeira, que amortece.
Ganha a pessoa idosa mas ganha também o mais jovem, que vai poder envelhecer mantendo o seu aparelho osteomuscular.
BBC News Brasil – O senhor
está com 79 anos e completa, em 2025, 50 anos de estudo na área do
envelhecimento. Tem algo que o está surpreendendo nesta fase da vida?
Kalache – Já fui novinho, comecei a trabalhar nessa área com 29 anos. Quando comecei, me chamavam de louco.
Uma coisa que me surpreende é
que continuo apaixonado pelo que faço, com propósito, com alegria de
viver. Talvez isso seja da minha personalidade, não sou pessimista, não
sou ranzinza.
Você pode ter capital de
saúde, capital de conhecimento, capital social, dinheirinho na caixinha,
você pode ter tudo isso, mas se você não tiver um propósito de vida, se
você não souber o que está te fazendo levantar de manhã, em um país tão
desigual, com tanta necessidade de que você se dedique, aí nada vale a
pena.
Então, capriche. Procure ter essa motivação. Seja mais leve. De adulto ranzinza ninguém gosta, e velho ranzinza ninguém atura.
Aprendi isso com um velho, meu
sogro, que faleceu aos 104 anos. Ele tinha uma alegria de viver, um
senso de humor maravilhoso. Aprenda a ter mais bom humor, a ser mais
leve, a ser mais tolerante.
Sempre dá tempo de aprender isso. uanto mais cedo melhor e nunca é tarde demais. Capriche.Nas próximas décadas, também a Medicina precisará lidar com muito mais idosos no Brasil, destaca Kalache. (Getty Images)