Powered By Blogger

sábado, 28 de março de 2026

Endometriose: doença inflamatória crônica, sistêmica em impacto e ainda marcada por atraso diagnóstico


Muito além da dismenorreia, a endometriose combina dor crônica, inflamação, infertilidade, prejuízo funcional e deterioração mensurável da qualidade de vida.

A endometriose precisa deixar de ser tratada como uma condição “ginecológica comum” e passar a ser reconhecida pelo que de fato é: uma doença inflamatória crônica, estrogênio-dependente, frequentemente dolorosa e potencialmente incapacitante, associada a repercussões relevantes sobre saúde física, saúde mental, vida sexual, fertilidade, desempenho ocupacional e qualidade de vida. A OMS estima que a doença afete cerca de 10% das mulheres e meninas em idade reprodutiva no mundo, o que corresponde a aproximadamente 190 milhões de pessoas.

Do ponto de vista clínico, a carga de doença vai muito além da tríade simplificada “dor menstrual, infertilidade e laparoscopia”. A endometriose está associada a dismenorreia intensa, dor pélvica crônica, dispareunia, disquesia, sintomas urinários e intestinais cíclicos, fadiga e subfertilidade/infertilidade, com expressão clínica heterogênea e nem sempre proporcional à extensão anatômica aparente das lesões. As diretrizes da ESHRE ressaltam justamente esse ponto: trata-se de uma condição com impacto amplo sobre qualidade de vida, relações sociais e trabalho, e que exige abordagem individualizada de acordo com fenótipo clínico, desejo reprodutivo e perfil de sintomas.

A dimensão funcional da doença é frequentemente subestimada. Estudos clássicos e ainda muito citados mostram perda expressiva de produtividade, com redução de desempenho no trabalho, absenteísmo e, sobretudo, presenteísmo — o fenômeno em que a paciente está fisicamente presente, mas com capacidade funcional significativamente reduzida pela dor e pela fadiga. Em outras palavras, a endometriose não afeta apenas o consultório; ela reorganiza rotinas, carreira, sono, sexualidade e planejamento reprodutivo.

Outro ponto central é o atraso diagnóstico, que permanece inaceitavelmente alto. Revisões recentes descrevem intervalos prolongados entre o início dos sintomas e o diagnóstico, frequentemente na faixa de 4 a 10 anos, dependendo do sistema de saúde e da metodologia utilizada. Esse atraso perpetua dor, piora sofrimento psicológico, aumenta uso fragmentado de serviços e posterga intervenções que poderiam melhorar controle sintomático e preservação de fertilidade. O problema não é apenas técnico; ele também reflete normalização cultural da dor pélvica e baixa suspeição clínica diante de sintomas cíclicos complexos.

 

 

 

Também houve mudança importante na lógica diagnóstica. A laparoscopia deixou de ocupar, de forma absoluta, o lugar de “padrão-ouro obrigatório” para toda suspeita clínica. As recomendações atuais da ESHRE reforçam o valor de história clínica dirigida, exame físico e métodos de imagem, especialmente ultrassonografia transvaginal especializada e ressonância magnética em contextos selecionados. A laparoscopia passa a ser mais bem posicionada em situações específicas, como imagem negativa com persistência de suspeita clínica ou quando o manejo empírico falha ou não é apropriado. Isso é avanço real, porque reduz a dependência de uma abordagem cirúrgica como porta de entrada para validação diagnóstica.

No manejo, a mensagem técnica também precisa ser clara: não há cura universal e o tratamento é orientado por objetivo clínico. Para dor, terapias hormonais e analgésicas continuam pilares importantes; para infertilidade, a estratégia depende de idade, reserva ovariana, anatomia, gravidade e plano reprodutivo; para doença profunda ou refratária, cirurgia pode ter papel, idealmente em centros com expertise e abordagem multidisciplinar. A visão episódica — tratar uma crise, ignorar o restante e devolver a paciente ao limbo — simplesmente não é compatível com o que hoje se sabe sobre endometriose como condição crônica.

Para uma plataforma médica, o ponto-chave é este: a endometriose não deve ser reduzida a “cólica forte”. Ela é uma doença crônica de alto impacto biopsicossocial, subdiagnosticada, subtratada e ainda cercada por banalização clínica. Em março amarelo, o recado mais tecnicamente honesto não é de sensibilização genérica, mas de reposicionamento: suspeitar antes, diagnosticar melhor, tratar de modo longitudinal e medir desfechos que importam para a paciente

Referências

  1. World Health Organization. Endometriosis [Internet]. Geneva: WHO; 2025 [cited 2026 Mar 9]. Available from: https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/endometriosis
  2. Becker CM, Bokor A, Heikinheimo O, Horne AW, Jansen F, Kiesel L, et al. ESHRE guideline: endometriosis. Hum Reprod Open. 2022;2022(2):hoac009.
  3. Zondervan KT, Becker CM, Missmer SA. Endometriosis. N Engl J Med. 2020;382(13):1244-56.
  4. Soliman AM, Surrey E, Bonafede M, Nelson JK, Castelli-Haley J. Real-world evaluation of direct and indirect economic burden among endometriosis patients in the United States. Adv Ther. 2018;35(3):408-23.
  5. De Corte P, D’Hooghe T, Hummelshoj L, et al. Time to diagnose endometriosis: current status, challenges and regional characteristics—a systematic literature review. J Clin Med. 2024;13(19):5836.

 

 

 
FONTE: https://web.facebook.com/OncologiaBrasilpage?__cft__[0]=AZZUwFCZgWkj2jQpUaHvDUoLESf5ZOzGbDCe8yYkCVQNS_hsOXrMTv8riRj1ZvH2-Aye3JiTEBlh5kpIsTKIECCgYbHlARmMYqzg_79wep6FJk4YQjd_sP1cHFp10wdTDlXIgQq5mPZlhLv5BAkym7i24HPd6cAkEgcdDnZbxLPPb6u9PsV59U3xpCohdvcqaG4OclsdRak4m5yhDaPOLqRSoynFnS2cHWnT9RkPta-PtQ&__tn__=-UC%2CP-y-R


 

 

 


 

obs. conteúdo meramente informativo procure seu médico

abs.fraternos

Carla

 

CÂNCER:: Março Verde e câncer de fígado: por que prevenção e diagnóstico precoce precisam virar pauta permanente

 

O “Março Verde” aparece, em algumas agendas brasileiras de campanhas de saúde, como um período de conscientização sobre neoplasias e fatores de risco, e isso abre uma boa janela para falar de um tumor frequentemente silencioso: o câncer de fígado, em especial o carcinoma hepatocelular (CHC/HCC), que costuma surgir em fígados já doentes (cirrose e hepatites crônicas, por exemplo).

No Brasil, o câncer de fígado não está entre os mais incidentes, mas seu impacto é relevante porque muitos casos são diagnosticados tardiamente. Na estimativa do INCA para 2023, houve 6.390 casos novos em homens (2,7% dos cânceres, excluindo pele não melanoma). Na mortalidade, dados de 2021 mostram 6.061 óbitos em homens e 4.535 em mulheres por “fígado e vias biliares intra-hepáticas”.

No mundo, o cenário é ainda mais contundente: em estatísticas globais recentes, o câncer de fígado figura entre os principais responsáveis por mortes por câncer.

Por que o câncer de fígado é tão desafiador?

  1. Ele costuma ser silencioso por anos.
  2. A maioria dos casos acontece em pessoas com doença hepática crônica (cirrose, hepatite B ou C, doença hepática gordurosa associada à disfunção metabólica (MASLD/MASH) e uso nocivo de álcool)).
  3. Quando os sintomas aparecem (dor, emagrecimento, icterícia, aumento do abdome), muitas vezes já há doença mais avançada.

Esse “atraso diagnóstico” é a parte cruel e, paradoxalmente, a parte mais prevenível do problema.

O que mais aumenta o risco? (o núcleo “prevenível”)

A boa notícia (que vem com responsabilidade): uma parcela importante do risco é modificável e há consenso internacional sobre os principais alvos.

1) Hepatite B (HBV)

A hepatite B é causa importante de cirrose e câncer de fígado. A OMS destaca que, em 2022, a hepatite B esteve associada a cerca de 1,1 milhão de mortes, sobretudo por cirrose e carcinoma hepatocelular, e reforça que a vacina é segura e eficaz.

Além disso, há evidência de impacto populacional da vacinação na redução de câncer hepático relacionado ao HBV.

2) Hepatite C (HCV)

A hepatite C é tratável (com antivirais de ação direta) e a cura reduz progressão de doença hepática e, portanto, risco futuro.

3) Álcool

O consumo nocivo aumenta risco de cirrose e câncer de fígado de forma dose-dependente.

4) MASLD/MASH (esteatose hepática associada à disfunção metabólica)

Obesidade, diabetes tipo 2 e síndrome metabólica se tornaram motores crescentes do risco hepático em vários países. Em 2025, uma Comissão do The Lancet chamou atenção para a trajetória de crescimento global e para a grande fatia potencialmente prevenível, com foco em metabolismo, álcool e hepatites virais.

“Rastreamento”: para quem faz sentido e como é feito

Aqui é onde a prevenção vira prática clínica.

Para pessoas de alto risco (especialmente cirrose, e alguns subgrupos com hepatite B crônica), grandes sociedades recomendam vigilância periódica para detectar CHC mais cedo. A orientação convergente é ultrassom abdominal a cada ~6 meses, com ou sem AFP (alfa-fetoproteína), dependendo do contexto e diretriz.

Importante: isso não é “check-up” para população geral. A estratégia é voltada a grupos com risco suficientemente alto para que os benefícios superem falsos positivos, ansiedade e custos.

Sinais de alerta (especialmente em quem já tem doença do fígado)

Procure avaliação médica se houver:

  • Perda de peso inexplicada, fadiga persistente
  • Dor/desconforto no quadrante superior direito do abdome
  • Icterícia (pele/olhos amarelados), urina escura
  • Ascite (barriga d’água), inchaço de pernas
  • Piora súbita de um quadro de cirrose “estável”

Esses sinais não são específicos, mas em contexto de risco não devem ser normalizados.

O “checklist” do Março Verde que realmente muda desfecho

  • Vacinação contra hepatite B (e checar status vacinal).
  • Testagem para HBV e HCV em grupos indicados e tratamento quando positivo.
  • Redução de álcool (ou abstinência, quando indicada).
  • Controle de peso e diabetes (MASLD/MASH entra aqui).
  • Se você tem cirrose (por qualquer causa): conversar sobre vigilância a cada 6 meses.

Conclusão

O câncer de fígado é um exemplo clássico de oncologia em que saúde pública, hepatologia e prevenção precisam andar juntas. “Março Verde” funciona como gatilho de comunicação, mas o impacto real vem de rotinas simples e consistentes: vacinar, testar, tratar, reduzir exposições e vigiar quem é alto risco.

Referências

  1. Instituto Nacional de Câncer (INCA). Estatísticas de câncer: números de incidência estimada (2023) e mortalidade (2021) por localização primária do tumor e sexo. Brasília: INCA; [acesso em 26 fev 2026].
  2. World Health Organization. Hepatitis B – Fact sheet. Updated 23 Jul 2025.
  3. Bray F, et al. Global cancer statistics 2022: GLOBOCAN estimates of incidence and mortality worldwide for 36 cancers in 185 countries. CA Cancer J Clin. 2024.
  4. Singal AG, et al. AASLD Practice Guidance on prevention, diagnosis, and treatment of hepatocellular carcinoma. Hepatology. 2023.
  5. Sangro B, et al. EASL Clinical Practice Guidelines on the management of hepatocellular carcinoma. J Hepatol. 2025.
  6. The Lancet. Reversing the rise of liver cancer. 28 Jul 2025.

 

 

 

 

 
FONTE: https://web.facebook.com/OncologiaBrasilpage?__cft__[0]=AZZUwFCZgWkj2jQpUaHvDUoLESf5ZOzGbDCe8yYkCVQNS_hsOXrMTv8riRj1ZvH2-Aye3JiTEBlh5kpIsTKIECCgYbHlARmMYqzg_79wep6FJk4YQjd_sP1cHFp10wdTDlXIgQq5mPZlhLv5BAkym7i24HPd6cAkEgcdDnZbxLPPb6u9PsV59U3xpCohdvcqaG4OclsdRak4m5yhDaPOLqRSoynFnS2cHWnT9RkPta-PtQ&__tn__=-UC%2CP-y-R


 

 

 


 

obs. conteúdo meramente informativo procure seu médico

abs.fraternos

Carla