Um estudo do Global Burden of Disease (GBD) 2023, publicado no The Lancet Public Health em 7 de setembro de 2026, estima que a exposição passiva ao fumo esteve associada a 1,66 milhão de mortes e 44,8 milhões de anos de vida ajustados por incapacidade (DALYs) entre 1990 e 2023.
A análise, que avaliou 204 países e territórios, é a primeira publicação do GBD desenvolvida especificamente para avaliar o fumo passivo como fator de risco global independente. Para aprimorar as estimativas, foram incorporadas 91 novas fontes de dados sobre exposição no ambiente de trabalho e 87 sobre a composição dos domicílios. Os pesquisadores também adotaram um modelo baseado diretamente na condição de exposição, classificando os indivíduos como expostos ou não expostos.
Em 2023, cerca de 2,71 bilhões de pessoas estavam expostas passivamente ao fumo no mundo, entre elas 1,49 bilhão de mulheres e 767 milhões de crianças e adolescentes de 0 a 14 anos. A prevalência global padronizada por idade foi estimada em 33,9%, sendo de 37,3% entre mulheres e 30,6% entre homens. Em alguns países, a exposição entre mulheres foi quase 1,8 vez maior do que entre homens.
Apesar de a prevalência global padronizada por idade ter diminuído 22,2% entre 1990 e 2023, o número absoluto de pessoas expostas permaneceu aproximadamente estável. Houve aumento expressivo na África Subsaariana e no Norte da África e Oriente Médio. O Brasil esteve entre os países com maior redução da prevalência padronizada no período, com queda estimada de 43,4%.
Os impactos sobre a saúde permanecem expressivos. Em 2023, foram estimadas 1,66 milhão de mortes atribuíveis ao fumo passivo, correspondendo a 2,76% de todas as mortes no mundo. Desse total, 868 mil ocorreram entre mulheres e 59 mil entre crianças e adolescentes. O fumo passivo foi o 11º fator de risco de nível 3 associado ao maior número de mortes no GBD 2023.
A carga de doença chegou a 44,8 milhões de DALYs, sendo 39,1 milhões de anos de vida perdidos por morte prematura e 5,73 milhões de anos vividos com incapacidade. Entre crianças e adolescentes, foram estimados 5,55 milhões de DALYs. A doença cardíaca isquêmica foi a principal responsável pela carga global, com 12 milhões de DALYs. Já entre crianças e adolescentes, as infecções respiratórias inferiores foram o principal desfecho, com 5,16 milhões de DALYs.
Entre os demais desfechos avaliados estão câncer de pulmão e mama, acidente vascular cerebral (AVC), doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC), diabetes tipo 2 e otite média. A asma foi incluída pela primeira vez no GBD como desfecho atribuível ao fumo passivo. Na população geral, ela representou 3,4% dos DALYs atribuíveis à exposição; entre crianças e adolescentes, 6,3%.
A população infantil merece atenção especial. Além do grande número de crianças expostas, os pesquisadores destacam que elas são particularmente suscetíveis aos efeitos do fumo passivo por apresentarem vias aéreas em desenvolvimento, sistema imunológico ainda imaturo e maior ventilação minuto em relação ao peso corporal. O trabalho reforça que não existe nível seguro de exposição.
A análise considerou como exposição o contato com fumaça de produtos de tabaco combustíveis em ambientes domésticos ou de trabalho. Situações ocorridas exclusivamente em bares, restaurantes, transporte público e veículos privados não foram capturadas. A população considerada em risco foi restrita a não fumantes e fumantes ocasionais; fumantes diários foram classificados como não expostos para evitar sobreposição com os riscos do tabagismo ativo.
Os resultados reforçam a necessidade de ampliar a proteção por meio de políticas de ambientes livres de fumaça. Cerca de 70% da população mundial ainda não está protegida por leis abrangentes nesse sentido. Em 2024, 79 países haviam alcançado o nível mais alto do indicador “Protect” do MPOWER, dos quais 24 estavam nas Américas. A cobertura global de legislação abrangente de ambientes livres de fumaça passou de 3% da população em 2007 para 33% em 2024, alcançando cerca de 2,6 bilhões de pessoas.
Para o presidente da SBPT, Dr. Ricardo de Amorim Corrêa, os dados reforçam a necessidade de combinar a proteção dos ambientes com outras medidas de controle do tabagismo.
“Além da legislação, são necessárias medidas mais amplas de controle do tabaco para reduzir a exposição passiva ao fumo, compensar o crescimento populacional e diminuir a carga sobre a saúde pública. Embora as políticas livres de fumo reduzam diretamente a exposição passiva ao fumo e apoiem indiretamente a cessação do tabagismo ao mudar as normas sociais, medidas adicionais, como a tributação do tabaco, proibição de marketing, embalagens simples e programas de cessação, são necessárias para impedir a iniciação ao tabagismo e reduzir a prevalência do tabagismo.”, ressaltou.
A SBPT acompanha essa agenda por meio de ações de informação, educação, prevenção, advocacy e defesa de políticas públicas, em articulação com associações de pacientes e diferentes atores da área da saúde. A Sociedade desenvolve iniciativas de conscientização sobre os riscos relacionados ao cigarro convencional e aos dispositivos eletrônicos para fumar e contribui para as discussões sobre políticas públicas e estratégias de proteção à saúde respiratória.
Nos espaços de decisão, essa contribuição inclui a participação em audiências públicas e consultas públicas, o diálogo com parlamentares e gestores e a oferta de subsídios técnicos e científicos para a elaboração e o aprimoramento de leis, políticas públicas e protocolos relacionados à saúde respiratória e ao controle do tabagismo. A Sociedade também leva evidências científicas a diferentes instâncias do poder público, aproximando o conhecimento produzido na área da saúde das decisões que impactam a população.
A iniciativa também se soma às ações de comunicação e educação da Sociedade, como a campanha “A Saúde Está no Ar”, que busca ampliar o conhecimento da população sobre doenças respiratórias, prevenção, diagnóstico e cuidado. Os resultados apresentados pelo GBD 2023 reforçam a dimensão global do problema e a importância de manter o fumo passivo entre as prioridades de prevenção e proteção da saúde respiratória.
Referência:
Fonte:https://sbpt.org.br/portal/
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