Dr. Maurício Kucharsky, coordenador Médico da OS CEJAM M’Boi Mirim, concedeu entrevista sobre as diferenças entre doenças agudas e crônicas, como é feito o diagnóstico, tratamento e medidas de prevenção. Confira a matéria:
1)Muito se ouve falar de doenças agudas e crônicas. Qual a diferença entre ambas? Por favor, dê exemplos de doenças agudas e crônicas. Doença aguda é caracterizada por inicio súbito de evolução rápida e curta duração, já doença crônica apresenta uma progressão lenta e duração prolongada. Um exemplo de doença aguda são as amigdalites, e de doença crônica a hipertensão arterial.
2) Como é feito o diagnóstico de ambas? Ambas podem ser diagnosticadas através de exame físico e exames subsidiários. Porém, nas doenças agudas os sinais e sintomas se apresentam mais precocemente e de forma mais clara, facilitando o diagnóstico da doença na maioria dos casos.
3) Quando o problema deixa de ser agudo e passa a ser crônico? Quando a evolução da doença dura mais de três meses ela passa a ser considerada crônica.
4) Qual o tratamento indicado para doenças agudas e crônicas? Nas doenças agudas o tratamento visa sempre à cura da patologia, já nas doenças crônicas o tratamento está mais relacionado a evitar sequelas e/ou complicações e consequentemente melhorar a qualidade de vida do paciente.
5) Quais as medidas para evitar que a dor aguda se torne crônica? A principal medida para evitar que uma dor aguda se torne crônica é tratar a causa da dor e não somente os sintomas da dor.
6)Muitas pessoas levam a vida administrando a dor. Qual a importância de um trabalho de conscientização das mesmas de que sentir dor não é normal? A dor nunca pode ser considerada “normal” nem pelo paciente e muito menos pelo médico, pois esta dor pode ser indicio de uma patologia tratável em fase aguda, que não tratada no momento oportuno pode levar a sequelas irreversíveis.
A doença de Hirata, também conhecida comosíndromede Hirata ouhipoglicemiaautoimune, é uma doença rara que se caracteriza pela presença deanticorposanti-insulinacirculantes, gerando episódios hipoglicêmicos reversíveis.
Trata-se de uma doença rara e, portanto, pouco conhecida, cuja maior parte dos casos foi descrita nas populações japonesa e coreana, embora também tenham sido descritos casos em outras etnias. A condição foi descrita pela primeira vez pela médica japonesa Yukimasa Hirata, em 1970, no Japão.
Quais são as causas da doença de Hirata?
As causas exatas da doença de Hirata ainda não são bem conhecidas. Sabe-se apenas que ela se desenvolve quando um fator desencadeante (um medicamento ou umainfecçãoviral, por exemplo) age sobre um fundo genético predisponente. Parece haver uma associação da doença com osalelosHLA classe II dos tipos DRB1*0406, DQA1*0301 e DQB2*0302, os quais são cerca de 10 vezes mais frequentes em orientais que em caucasianos.
Os episódios dehipoglicemiasão secundários a um aumento da concentração plasmática deanticorposanti-insulina, comhiperglicemia, havendo umhiperinsulinismoendógeno reativo comhipoglicemia.
A doença afeta predominantemente indivíduos acima de 40 anos com pico de idade entre 60 e 69 anos. Não há diferença naincidênciaentre os sexos masculino ou feminino.
Qual é o substrato fisiopatológico da doença de Hirata?
Apatogêneseda doença de Hirata envolve a formação de complexosinsulina-anticorposanti-insulinaque induzem alterações glicêmicas com um mecanismo de dupla fase: oanticorpoanti-insulinaimpede que ainsulinase ligue ao seu receptor na fase pós-prandial, possivelmente resultando emhiperglicemia; depois disso, quando ainsulinaé liberada doanticorpo, ela age livremente sobre as concentrações deglicosenosangue, induzindohipoglicemia.
Ou seja, após uma refeição, a concentração deglicosena corrente sanguínea aumenta, estimulando a secreção deinsulina. Os autoanticorpos se ligam a essas moléculas deinsulina, tornando-as incapazes de exercer seus efeitos. Ahiperglicemiaresultante promove liberação adicional deinsulina. À medida que a concentração deglicosecai, a secreção deinsulinatambém diminui e o nível total deinsulinadiminui. Agora as moléculas deinsulinase dissociam espontaneamente dos autoanticorpos, dando origem a um nível elevado deinsulinalivre inapropriado para a concentração deglicose, causandohipoglicemia.
Uma descoberta importante foi a associação da doença com a exposição a medicações sulfidrilas (1983) e, posteriormente, com determinantes imunogênicos específicos. Nos últimos 20 anos, vem sendo aprofundado o conhecimento sobre apatogêneseda doença de Hirata.
Quais são as características clínicas da doença de Hirata?
As manifestações clínicas da doença de Hirata variam amplamente em termos de gravidade, duração e taxas de remissão. Osintomamais característico da doença são frequentes episódios dehipoglicemiaque cursam com um grande aumento dosanticorposanti-insulina, sem que tenha havido exposição prévia àinsulina. Ahipoglicemiase manifesta comsintomasautonômicos, como fome, tremor e ansiedade, esintomasnervosos, como irritabilidade, alterações comportamentais, confusão,amnésia, convulsões e perda de consciência.
Ahipoglicemiaé, pois, um tipo de fenômeno rebote. Ao contrário das hipoglicemias por jejum, os pacientes costumam apresentarhiperglicemiaimediatamente após a refeição seguida dehipoglicemiaque ocorre horas após (3 a 4 horas).
Observa-se associação da doença de Hirata com outrasdoençasautoimunese ela pode ser desencadeada pela exposição a certas drogas. O quadro hipoglicêmico é transitório e está frequentemente associado a drogas que contenham o grupo sulfidril em sua estrutura.
O limiar para provocar manifestações dehipoglicemiana doença de Hirata é muito menor em pacientes saudáveis. Ahipoglicemiacostuma ser leve, embora haja casos que apresentem manifestações graves, comoconvulsõesecoma.
Como mencionado, os pacientes podem apresentar oscilações dehiperglicemiaparahipoglicemia. Nessas circunstâncias, a apresentação típica consiste emhiperglicemiapós-prandial precoce e subsequentehipoglicemiareativa. Tem sido relatado aumento no peso corporal, especialmente em pacientes que apresentam a doença de Hirata de longa duração, mal reconhecida, o que pode ser devido ao aumento da ingestão de alimentos como um mecanismo corretivo parahipoglicemia.
Como o médico diagnostica a doença de Hirata?
Odiagnósticoda doença de Hirata é sempre um desafio, porque exige excluir outras causas dehipoglicemiahiperinsulínica. Do ponto de vista clínico, ocorrem estados dehipoglicemiaespontâneos não cetóticos, na maior parte dos casos associados a outras doençasautoimunesconcomitantes.
No que diz respeito aos dados de laboratório, o padrão ouro paradiagnósticoé a análise de uma amostra desangue. Ela apresenta-se com altos níveis deanticorposanti-insulinaem pacientes que nunca foram previamente expostos à terapia cominsulina. Os níveis deanticorposanti-insulinadosados noplasmadesses pacientes são caracteristicamente muito elevados, em geral acima de 1.000 µU/mL.
Como o médico trata a doença de Hirata?
A remissão espontânea ocorre em até 80% dos casos com a interrupção da droga que desencadeou o quadro ou com medidas comportamentais como, por exemplo, realizar pequenas refeições durante o dia para evitar grandes picos deinsulina. Como a doença frequentemente é autorremissiva, seu manejo consiste principalmente em alterações dietéticas orientadas para prevenir ahipoglicemia.
Terapias farmacológicas podem ser necessárias para controlar pacientes que apresentem manifestações mais severas da doença. Elas podem incluir drogas que reduzam a secreção pancreática e agentes imunossupressores.Corticoidessistêmicospodem ser úteis para reduzir as concentrações deanticorpose as drogas contendo grupo sulfidril devem ser evitadas. O quadro geralmente melhora quando a droga gatilho é suspensa.
ABCMED, 2023.As características da doença de Hirata. Disponível em: <https://www.abc.med.br/p/sinais.-sintomas-e-doencas/1434360/as-caracteristicas-da-doenca-de-hirata.htm>. Acesso em: 25 jun. 2023.
Nota ao leitor: As notas acima são dirigidas principalmente aos leigos em medicina e têm por objetivo destacar os aspectos mais relevantes desse assunto e não visam substituir as orientações do médico, que devem ser tidas como superiores a elas. Sendo assim, elas não devem ser utilizadas para autodiagnóstico ou automedicação nem para subsidiar trabalhos que requeiram rigor científico.
Desde a década de 1980, aresistência à insulinatem sido associada ao risco dedoenças cardiovascularesediabetes mellitustipo 2. Um dos métodos empregados para sua estimativa é o índice HOMA que, embora bem estabelecido para estudos epidemiológicos, ainda carece de credibilidade consensual para aplicação generalizada na prática clínica.
O índice HOMA (sigla em inglês deHomeostatic Model Assessment) é uma ferramenta utilizada no exame desanguepara avaliar aresistência à insulina(HOMA-IR) e a função dascélulas beta pancreáticas(HOMA-beta) nocorpo humanoe, assim, auxiliar nodiagnósticododiabetes. Ele é calculado matematicamente a partir dosníveis deglicoseeinsulinanosangueem jejum e é usado como uma medida indireta da sensibilidade àinsulina.
O modelo homeostático foi descrito pela primeira vez sob o nome HOMA por Matthewset al. em 1985.
Como se chegou à ideia do índice HOMA?
Chegou-se à ideia do índice HOMA a partir da observação de que as concentrações sanguíneas deglicoseeinsulinano estado estacionário de repouso são determinadas por sua interação em um ciclo de retroalimentação, em que uma influencia a outra.
Um modelo computacional foi desenvolvido de modo a prever e detectar os vários graus de deficiência dascélulas beta pancreáticas, fabricantes dainsulina, e a resistência oferecida pelascélulascorporais à penetração dainsulina nelas.
Cálculos numéricos obtidos a partir dos valores daglicemiae da insulinemia no exame desanguede jejum de um determinado paciente permitem uma estimativa daresistência à insulinae da função deficiente dascélulasbeta dopâncreas(modelo HOMA).
Como calcular o índice HOMA?
Com o índice HOMA estima-se a sensibilidade e a resistência dascélulasde uma pessoa àinsulina. A pontuação HOMA é a expressão numérica do resultado de uma fórmula matemática obtida por meio dos valores daglicemia de jejume da insulinemia de jejum.
A fórmula para avaliar aresistência à insulina(Homa-IR) consiste em tomar valor daglicemia de jejumem milimoles (mmol), multiplicar pelo valor da insulinemia de jejum medida em unidades internacionais por mililitro (ui/ml) e dividir o resultado por 22,5 quando o nível deinsulinaem jejum e o nível deglicemia de jejumsão expressos em unidades do Sistema Internacional de Unidades. Caso contrário, deve-se utilizar 405, em lugar de 22,5. O resultado numérico é a pontuação HOMA.
O que indica o índice HOMA?
Os valores normais do índice HOMA para adultos dependem do laboratório que realiza o teste e da população de referência utilizada para estabelecer os valores de referência. Podem variar também no caso de crianças e adolescentes comíndice de massa corporal(IMC) muito elevado.
De forma geral, os valores de referência são:HOMA-IRinferior a 3,4 e HOMA-beta entre 167 e 175. Como os valores apurados do HOMA-beta não mereceram a confiança unânime dos pesquisadores, hoje em dia praticamente não se leva mais em conta esse índice.
Resultados mais altos que os valores de referência doHOMA-IRquerem dizer que existe umaresistência à insulinaou um mal funcionamento dascélulasbeta dopâncreas, levando a uma produção insuficiente deinsulinae uma chance de desenvolver várias doenças.
O que éresistência à insulina?
Para que faça o efeito de gerar energia, aglicose sanguínea, obtida através da alimentação, precisa penetrar nascélulas. Aresistência à insulinaé uma condição em que ascélulasdo corpo têm dificuldade em responder adequadamente àinsulina, umhormônioproduzido pelopâncreasque ajuda aglicosea penetrar nascélulase, assim, controlar osníveis deaçúcarnosangue.
Quando ascélulasse tornam resistentes àinsulina, opâncreasprecisa produzir quantidades maiores dessehormôniopara manter os níveis deaçúcarnosanguedentro da faixa normal. Com o tempo, esse aumento na produção deinsulinapode levar à diminuição da sensibilidade dascélulaspancreáticas responsáveis pela produção deinsulina.
Assim, aresistência à insulinaé um estado que antecede grande parte dos casos dediabetese, eventualmente, pode resultar emdiabetes tipo 2.
Do ponto de vista quantitativo, aresistência à insulinapode ser definida como a necessidade de 200 ou mais unidades deinsulinaao dia para ter-se o controle glicêmico e para evitar acetose, ou seja, o uso de gorduras eproteínaspara a obtenção de energia quando aglicosenão está disponível.
As causas daresistência à insulinaresultam de características herdadas e/ou adquiridas. As características herdadas são devidas a defeitos genéticos,anticorposcontrainsulinae anormalidades destehormônio. Entre as adquiridas, aobesidadeé a causa mais comum. Há, ainda, alguns agentes que podem causarresistência à insulina, como idade avançada, certas medicações, ingestão excessiva de sódio, terapia antirretroviral prolongada (como a usada paraHIV), uso incorreto deinsulinaexógena esíndromedosováriospolicísticos.
Quase nunca aresistência à insulinaapresentasintomas, mas se não for tratada pode aumentar o risco para vários problemas desaúde. É importante notar que essa condição pode ser prevenida ou gerenciada simplesmente com mudanças no estilo de vida, como uma dieta saudável e a prática regular deatividade física, por exemplo. Em alguns casos, os medicamentos também podem ser prescritos para ajudar a controlar os níveis deaçúcarnosanguee melhorar a sensibilidade àinsulina.
Alimentos de altoíndice glicêmico, como pães de farinhas brancas, batata-inglesa eaçúcarrefinado devem ser trocados por opções integrais e por legumes de baixo índice glicêmico, como cenoura e brócolis, por exemplo. O uso de álcool e tabaco também deve ser evitado.
Aresistência à insulinapode levar a uma série de complicações desaúde, algumas das quais são:
ABCMED, 2023.Índice HOMA: o que é isso?. Disponível em: <https://www.abc.med.br/p/diabetes-mellitus/1435595/indice-homa-o-que-e-isso.htm>. Acesso em: 25 jun. 2023.
Nota ao leitor: As notas acima são dirigidas principalmente aos leigos em medicina e têm por objetivo destacar os aspectos mais relevantes desse assunto e não visam substituir as orientações do médico, que devem ser tidas como superiores a elas. Sendo assim, elas não devem ser utilizadas para autodiagnóstico ou automedicação nem para subsidiar trabalhos que requeiram rigor científico.