Atualizado em 14/05/2026
Os gliomas são um dos principais tipos de tumores cerebrais primários, isto é, aqueles que se originam dentro do próprio tecido do cérebro ou da medula espinhal. Eles se desenvolvem a partir das células gliais, responsáveis por dar sustentação, nutrição e proteção aos neurônios. Por essa razão, podem surgir em diversas regiões do sistema nervoso central, com comportamentos clínicos e prognósticos distintos.
O entendimento sobre os gliomas avançou muito nos últimos anos. Antigamente, eles eram identificados apenas pela aparência das células ao microscópio. Hoje, além disso, os médicos analisam marcadores genéticos do tumor, que permitem saber como ele tende a se comportar e quais tratamentos podem funcionar melhor para cada paciente. Essa mudança tem permitido diagnósticos mais precisos e abordagens cada vez mais personalizadas.
Como os gliomas se diferenciam de outros tumores cerebrais
A principal diferença entre os gliomas e outros tumores cerebrais está na origem celular. Enquanto os gliomas nascem dentro do tecido do cérebro, a partir das células gliais, outros tumores, como os meningiomas, têm origem nas membranas que envolvem o cérebro (as meninges), e as metástases cerebrais resultam da disseminação de células cancerígenas vindas de outros órgãos, como pulmão, mama, pele, entre outros.
Os gliomas também se destacam pelo modo como crescem e se espalham. Eles tendem a infiltrar o tecido cerebral saudável ao redor, o que dificulta a remoção completa por cirurgia. Já os meningiomas, em geral, se expandem por compressão, sendo mais bem delimitados e, muitas vezes, mais fáceis de retirar totalmente.
A classificação da Organização Mundial da Saúde (OMS) divide os gliomas em graus de I a IV, conforme a velocidade de crescimento e o potencial de agressividade:
- Graus I e II (baixo grau): geralmente crescem mais lentamente e têm melhor prognóstico.
- Graus III e IV (alto grau): apresentam evolução rápida e maior risco de recorrência.
O grau mais alto corresponde ao glioblastoma, forma mais agressiva e comum em adultos. Já em crianças, predominam os gliomas de baixo grau, que tendem a responder melhor ao tratamento.
Principais sintomas do glioma
Os sinais e sintomas variam de acordo com a região do cérebro afetada e o tamanho do tumor. Em fases iniciais, muitos gliomas crescem silenciosamente, o que pode atrasar o diagnóstico. Com o avanço da doença, o quadro clínico costuma incluir:
- Crises epilépticas, especialmente em gliomas de baixo grau;
- Dor de cabeça persistente, que tende a piorar pela manhã ou durante esforços;
- Alterações neurológicas localizadas, como fraqueza, dificuldade de fala, perda de coordenação ou visão turva;
- Mudanças cognitivas e comportamentais, incluindo lentificação, falta de concentração e alterações de personalidade;
- Náuseas e vômitos, quando há aumento da pressão intracraniana.
De modo geral, os gliomas evoluem de forma subaguda, com sintomas que se instalam aos poucos. Já tumores metastáticos ou infecções cerebrais costumam ter evolução mais rápida e abrupta.
Diagnóstico e avanços recentes no tratamento
O diagnóstico de um glioma envolve várias etapas. A ressonância magnética é o principal exame de imagem, pois permite visualizar detalhes sobre o tamanho, a localização e o comportamento do tumor. Sequências avançadas, como FLAIR, difusão, perfusão e espectroscopia, ajudam a diferenciar áreas de necrose, edema e infiltração tumoral.
A confirmação definitiva é feita por meio de uma análise histológica, exame em que o tecido retirado por biópsia ou cirurgia é avaliado em laboratório. Nesse processo, as células são observadas no microscópio para identificar se são normais ou cancerígenas e determinar o tipo exato de tumor. Depois dessa etapa, o material passa por testes genéticos que analisam mutações e marcadores moleculares.
Entre os principais marcadores genéticos avaliados estão:
- Mutação do IDH: costuma indicar um tumor de crescimento mais lento e com melhor resposta ao tratamento.
- Codeleção 1p/19q: típica de um subtipo chamado oligodendroglioma, está associada a uma resposta mais favorável à quimioterapia e maior tempo de sobrevida.
- Metilação do MGMT: mostra que o tumor é mais sensível à temozolomida, principal medicamento usado no tratamento dos gliomas.
Esses avanços genéticos e moleculares revolucionaram o manejo clínico, permitindo identificar tumores mais sensíveis a certos medicamentos e definir estratégias personalizadas.
Nos últimos anos, o tratamento também evoluiu com o uso de cirurgia guiada por fluorescência, mapeamento cerebral funcional, ressonância intraoperatória e radiocirurgia de alta precisão, técnicas que aumentam a segurança e reduzem o risco de sequelas. Há ainda pesquisas promissoras com imunoterapia e vacinas tumorais, especialmente para o glioblastoma, embora ainda em estágios experimentais.
Além disso, a radiômica e a inteligência artificial têm sido utilizadas para analisar padrões de imagem, prevendo características moleculares dos tumores sem a necessidade imediata de biópsia.
O papel do tipo e da localização no prognóstico
O tipo molecular e a localização do glioma são fatores decisivos para o tratamento e o prognóstico. Tumores em áreas não eloquentes, regiões do cérebro que não controlam funções críticas, como fala ou movimento, podem ser removidos de forma mais ampla, o que se traduz em maior sobrevida. Já aqueles em áreas eloquentes exigem cirurgias mais conservadoras, muitas vezes realizadas com o paciente acordado, técnica que permite preservar funções essenciais.
Gliomas localizados em estruturas profundas, como tronco encefálico ou vias motoras, têm prognóstico mais reservado devido às limitações cirúrgicas. Ainda assim, a combinação entre cirurgia, radioterapia e quimioterapia com temozolomida permanece como base do tratamento, complementada por protocolos individualizados conforme o perfil molecular do tumor.
De forma geral, quanto maior for a quantidade do tumor que o cirurgião consegue retirar com segurança, melhor tende a ser o controle da doença e mais longo o intervalo até a progressão. Em tumores de baixo grau, pode-se optar por monitoramento e intervenções graduais, especialmente em pacientes jovens com boa função neurológica.
Expectativas e qualidade de vida
O avanço no diagnóstico precoce, nas técnicas cirúrgicas e na compreensão molecular dos gliomas tem permitido ampliar o tempo e a qualidade de vida dos pacientes. O acompanhamento multidisciplinar, envolvendo neurocirurgiões, oncologistas, radioterapeutas, fisioterapeutas e psicólogos, é essencial para o controle dos sintomas e a reabilitação cognitiva e motora.
Embora alguns tipos, como o glioblastoma, ainda representem desafios terapêuticos, o futuro aponta para abordagens cada vez mais direcionadas à biologia individual do tumor, com menor toxicidade e melhores resultados.
Revisão técnica: Ludmila Koch, médica oncologista do Einstein Hospital Israelita (CRM 132707)
FONTE: https://www.einstein.br/





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Carla