11/03/2025
Thais Bento Lima da Silva e Maria Antônia Antunes Fernandes (*)
As dependências não se resumem ao cuidado físico, mas à construção de um ambiente acolhedor e adaptado às necessidades cognitivas e emocionais.
Lidar com os diversos tipos de dependência que surgem em pessoas idosas com demência é um desafio multifacetado, que vai além do suporte físico e envolve a compreensão das necessidades cognitivas e emocionais do indivíduo. A demência, em especial a Doença de Alzheimer, compromete a memória de longo e curto prazo, afetando a habilidade da pessoa de executar atividades do dia a dia, como nomeação de objetos, formação de frases e planejamento de tarefas (Izquierdo, 2002). Esses déficits impactam diretamente a autonomia e a qualidade de vida da pessoa, exigindo uma abordagem cuidadosa para manter ao máximo sua independência.
Uma das primeiras consequências do comprometimento cognitivo em quadros de demência é a perda de memórias biográficas, essenciais para o reconhecimento de si e das relações com familiares e amigos (Rozenthal et al., 1995). Quando a pessoa idosa não consegue se lembrar de fatos, lugares e pessoas, sua capacidade de conexão e de cuidar de si mesmo se reduz, afetando também a sua autonomia e levando à dependência de um cuidador. O impacto vai além do físico, desafiando a própria identidade e afetando a percepção de quem se é.
A dependência, no entanto, não é necessariamente sinônimo de perda total de autonomia. Segundo Abreu, Forlenza e Barros (2005), uma pessoa pode apresentar limitações físicas ou cognitivas, mas, com o suporte certo, manter a capacidade de tomar decisões e expressar desejos. O que ocorre é um processo de adaptação, em que a autonomia pode ser parcialmente preservada dependendo das estratégias e do apoio oferecido. Esse paradoxo entre dependência e autonomia aponta para a importância de uma rede de apoio que considere tanto as limitações quanto as habilidades preservadas.
Para avaliar e planejar esse suporte, escalas funcionais e cognitivas são ferramentas indispensáveis. Elas nos ajudam a categorizar diferentes tipos de dependência e orientar o suporte de acordo com as necessidades e capacidades de cada pessoa. A dependência pode, portanto, se apresentar em graus variados, permitindo que a pessoa idosa mantenha uma certa autonomia e continue envolvida em decisões que afetam sua vida cotidiana.
Além disso, a função executiva — que envolve habilidades como planejamento, auto-regulação e flexibilidade mental — é essencial para responder de forma adaptativa aos desafios diários. Em muitos casos, os déficits de memória prospectiva dificultam a iniciação de ações rotineiras, como lembrar-se de tomar medicamentos ou preparar uma refeição (Einstein & McDaniel, 2002). A falta de estímulo para iniciar essas atividades pode ser compensada com lembretes, suporte familiar e adaptações no ambiente.
Portanto, lidar com as dependências, não se resume ao cuidado físico, mas envolve a construção de um ambiente acolhedor e adaptado às suas necessidades cognitivas e emocionais. O objetivo é preservar o máximo possível de autonomia, promovendo uma rede de suporte que incentive a pessoa idosa a exercer seu protagonismo nas decisões e atividades diárias, respeitando suas capacidades e limitando o impacto da perda cognitiva em sua vida.
Referências
IZQUIERDO, I. – Memória. Capítulo 2. São Paulo: Artmed, 2002.
ROZENTHAL, M.; ENGELHARDT, E.; LAKS, J. – Memória: aspectos funcionais. Rev Bras Neurol 1995;31(3):157-60
ABREU,
Izabella Dutra de; FORLENZA, Orestes Vicente; BARROS, Hélio Lauar de.
Demência de Alzheimer: correlação entre memória e autonomia. Archives of
Clinical Psychiatry (São Paulo), v. 32, p. 131-136, 2005.
EISTEIN,
G.O.; MCDANIEL, M.A. – Normal ageing and prospective memory. Journal of
Experimental Psychology: Learning, Memory and cognition. 1990;16,717-26.
In: Leibing, A.; Scheinkman, L. – The diversity of Alzheimer Disease:
Different approaches and contexts. IBUP, 2002a.
(*)
Thais Bento Lima da Silva – Gerontóloga formada pela Universidade de
São Paulo (USP). Mestra e Doutora em Ciências com ênfase em Neurologia
Cognitiva e do Comportamento, pela Faculdade de Medicina da Universidade
de São Paulo. Docente do curso de Bacharelado e de Pós-Graduação em
Gerontologia da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade
de São Paulo (EACH-USP), pesquisadora do Grupo de Neurologia Cognitiva e
do Comportamento da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo e
diretora científica da Associação Brasileira de Gerontologia (ABG).
Membro da diretoria da Associação Brasileira de Alzheimer- Regional São
Paulo. É parceira científica do Método Supera. Coordenadora do Grupo de
Estudos em Treino Cognitivo da Universidade de São Paulo. E-mail: thaisbento@usp.br
Maria Antônia Antunes Fernandes – Bacharel
em Gerontologia pela Escola de Artes, Ciências e Humanidades da
Universidade de São Paulo (EACH-USP). Foi bolsista de iniciação
científica PUB do projeto: “Intervenções psicoeducativas para a COVID-19
aliada à estimulação cognitiva no programa USP 60 +”. Atualmente é
colaboradora do Grupo de Estudos em Treino Cognitivo da USP (GETCUSP),
atuando na área de pesquisa em treino cognitivo de longa duração.
E-mail: aantoniaantuness@gmail.com
FONTE:https://portaldoenvelhecimento.com.br/BLOG
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