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quinta-feira, 3 de abril de 2025

MELHOR IDADE: Como lidar com tipos de dependências da pessoa idosa com demência

 11/03/2025

 

 


Thais Bento Lima da Silva e Maria Antônia Antunes Fernandes (*)

 

 

As dependências não se resumem ao cuidado físico, mas à construção de um ambiente acolhedor e adaptado às necessidades cognitivas e emocionais.


 Lidar com os diversos tipos de dependência que surgem em pessoas idosas com demência é um desafio multifacetado, que vai além do suporte físico e envolve a compreensão das necessidades cognitivas e emocionais do indivíduo. A demência, em especial a Doença de Alzheimer, compromete a memória de longo e curto prazo, afetando a habilidade da pessoa de executar atividades do dia a dia, como nomeação de objetos, formação de frases e planejamento de tarefas (Izquierdo, 2002). Esses déficits impactam diretamente a autonomia e a qualidade de vida da pessoa, exigindo uma abordagem cuidadosa para manter ao máximo sua independência.

 

Uma das primeiras consequências do comprometimento cognitivo em quadros de demência é a perda de memórias biográficas, essenciais para o reconhecimento de si e das relações com familiares e amigos (Rozenthal et al., 1995). Quando a pessoa idosa não consegue se lembrar de fatos, lugares e pessoas, sua capacidade de conexão e de cuidar de si mesmo se reduz, afetando também a sua autonomia e levando à dependência de um cuidador. O impacto vai além do físico, desafiando a própria identidade e afetando a percepção de quem se é.

A dependência, no entanto, não é necessariamente sinônimo de perda total de autonomia. Segundo Abreu, Forlenza e Barros (2005), uma pessoa pode apresentar limitações físicas ou cognitivas, mas, com o suporte certo, manter a capacidade de tomar decisões e expressar desejos. O que ocorre é um processo de adaptação, em que a autonomia pode ser parcialmente preservada dependendo das estratégias e do apoio oferecido. Esse paradoxo entre dependência e autonomia aponta para a importância de uma rede de apoio que considere tanto as limitações quanto as habilidades preservadas.

 

Para avaliar e planejar esse suporte, escalas funcionais e cognitivas são ferramentas indispensáveis. Elas nos ajudam a categorizar diferentes tipos de dependência e orientar o suporte de acordo com as necessidades e capacidades de cada pessoa. A dependência pode, portanto, se apresentar em graus variados, permitindo que a pessoa idosa mantenha uma certa autonomia e continue envolvida em decisões que afetam sua vida cotidiana.

Além disso, a função executiva — que envolve habilidades como planejamento, auto-regulação e flexibilidade mental — é essencial para responder de forma adaptativa aos desafios diários. Em muitos casos, os déficits de memória prospectiva dificultam a iniciação de ações rotineiras, como lembrar-se de tomar medicamentos ou preparar uma refeição (Einstein & McDaniel, 2002). A falta de estímulo para iniciar essas atividades pode ser compensada com lembretes, suporte familiar e adaptações no ambiente.

 

 

Portanto, lidar com as dependências, não se resume ao cuidado físico, mas envolve a construção de um ambiente acolhedor e adaptado às suas necessidades cognitivas e emocionais. O objetivo é preservar o máximo possível de autonomia, promovendo uma rede de suporte que incentive a pessoa idosa a exercer seu protagonismo nas decisões e atividades diárias, respeitando suas capacidades e limitando o impacto da perda cognitiva em sua vida.

Referências
IZQUIERDO, I. – Memória. Capítulo 2. São Paulo: Artmed, 2002.
ROZENTHAL, M.; ENGELHARDT, E.; LAKS, J. – Memória: aspectos funcionais. Rev Bras Neurol 1995;31(3):157-60
ABREU, Izabella Dutra de; FORLENZA, Orestes Vicente; BARROS, Hélio Lauar de. Demência de Alzheimer: correlação entre memória e autonomia. Archives of Clinical Psychiatry (São Paulo), v. 32, p. 131-136, 2005.
EISTEIN, G.O.; MCDANIEL, M.A. – Normal ageing and prospective memory. Journal of Experimental Psychology: Learning, Memory and cognition. 1990;16,717-26. In: Leibing, A.; Scheinkman, L. – The diversity of Alzheimer Disease: Different approaches and contexts. IBUP, 2002a.

 (*) Thais Bento Lima da Silva – Gerontóloga formada pela Universidade de São Paulo (USP). Mestra e Doutora em Ciências com ênfase em Neurologia Cognitiva e do Comportamento, pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Docente do curso de Bacharelado e de Pós-Graduação em Gerontologia da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (EACH-USP), pesquisadora do Grupo de Neurologia Cognitiva e do Comportamento da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo e diretora científica da Associação Brasileira de Gerontologia (ABG). Membro da diretoria da Associação Brasileira de Alzheimer- Regional São Paulo. É parceira científica do Método Supera. Coordenadora do Grupo de Estudos em Treino Cognitivo da Universidade de São Paulo. E-mail: thaisbento@usp.br
Maria Antônia Antunes FernandesBacharel em Gerontologia pela Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (EACH-USP). Foi bolsista de iniciação científica PUB do projeto: “Intervenções psicoeducativas para a COVID-19 aliada à estimulação cognitiva no programa USP 60 +”.  Atualmente é colaboradora do Grupo de Estudos em Treino Cognitivo da USP (GETCUSP), atuando na área de pesquisa em treino cognitivo de longa duração. E-mail: aantoniaantuness@gmail.com

 

 

 

 

 

 

 

 

FONTE:https://portaldoenvelhecimento.com.br/BLOG

 

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MELHOR IDADE: Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade em pessoas idosas: desafios e particularidades

 

 Gabriela dos Santos e Thais Bento Lima da Silva (*)

 Tradicionalmente associado à infância, o transtorno pode persistir na vida adulta e avançar para a velhice.

 

 

Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) é uma condição neuropsiquiátrica crônica caracterizada por sintomas persistentes de desatenção, hiperatividade e impulsividade. Tradicionalmente associado à infância, o transtorno pode persistir na vida adulta e avançar para a velhice, impactando significativamente a qualidade de vida das pessoas idosas. No entanto, o reconhecimento do TDAH nessa faixa etária ainda é um desafio, devido à escassez de estudos sobre a prevalência, ao subdiagnóstico e à sobreposição dos sintomas com outras condições clínicas, muitas vezes associadas ao envelhecimento

 

O diagnóstico do TDAH em pessoas idosas apresenta dificuldades específicas, uma vez que os critérios diagnósticos foram inicialmente desenvolvidos para crianças. Além disso, a sintomatologia pode se modificar ao longo da vida, tornando a hiperatividade menos evidente e destacando sintomas de desatenção e impulsividade. Um dos principais desafios diagnósticos é a diferenciação entre o TDAH e outros transtornos comuns no envelhecimento, como transtornos de humor, ansiedade e comprometimento cognitivo leve (Klen et al., 2019).

Muitas pessoas idosas com TDAH nunca receberam um diagnóstico formal na infância ou juventude, o que dificulta a confirmação retrospectiva do transtorno. A ausência de histórico diagnóstico pode levar a um subdiagnóstico significativo nessa população. Para o diagnóstico correto, é essencial a utilização de instrumentos validados para adultos e pessoas  idosas, associado a uma avaliação clínica detalhada.

 

Os indivíduos idosos com TDAH enfrentam desafios que vão além da sintomatologia central do transtorno. Estudos indicam que o transtorno está associado a uma maior prevalência de transtornos psiquiátricos, como depressão e ansiedade (Arpawong et al., 2023). Além disso, a presença do TDAH pode impactar a funcionalidade e a capacidade das pessoas idosas em realizar atividades de vida diária, aumentando o risco de isolamento social e dificuldades em manter relacionamentos interpessoais.

O impacto do TDAH na velhice também está relacionado a variáveis sociodemográficas e cognitivas. Por exemplo, fatores como menor escolaridade, pior condição socioeconômica e acesso limitado a serviços de saúde mental podem contribuir para um pior prognóstico. Indivíduos com menor escolaridade podem ter mais dificuldades em compensar os déficits atencionais, e aqueles em situação de vulnerabilidade social podem ter acesso reduzido a diagnóstico e tratamento adequados.

Cognitivamente, o TDAH pode ser confundido com sintomas iniciais de doenças neurodegenerativas, como a Doença de Alzheimer. No entanto, ao contrário das demências, os déficits cognitivos do TDAH tendem a ser mais relacionados a dificuldades de atenção sustentada e planejamento, sem o comprometimento progressivo da memória, por exemplo, sendo essa uma característica das doenças neurodegenerativas.

Estratégias de manejo devem ser adaptadas para a população idosa, incluindo abordagens farmacológicas seguras e intervenções psicoeducativas. Além disso, a inclusão de familiares e cuidadores no processo de tratamento pode favorecer a adesão terapêutica e o suporte emocional necessário para a pessoa idosa com TDAH.

Referências
ARPAWONG, T. E. et al. ADHD genetic burden associates with older epigenetic age: mediating roles of education, behavioral and sociodemographic factors among older adults. Clinical epigenetics, v. 15, n. 1, p. 67, 2023. Disponível em: https://doi.org/10.1186/s13148-023-01484-y. Acesso em: 18 fev. 2025.
FISCHER, S.; NILSEN, C. ADHD in older adults–a scoping review. Aging & Mental Health, p. 1-8, 2024.Disponível em: https://doi.org/10.1080/13607863.2024.2339994. Acesso em: 18 fev. 2025.
KLEIN, M. et al. Longitudinal Neuropsychological Assessment in Two Elderly Adults With Attention-Deficit/Hyperactivity Disorder: Case Report.  Front. Psychol. v. 10, n. 1119, p. 1-9, 2019. Disponível em: doi: 10.3389/fpsyg.2019.01119. Acesso em: 18 fev. 2025.

(*)  Gabriela dos Santos – Mestre pelo Programa de Pós-Graduação em Gerontologia pela Universidade de São Paulo (USP), Graduada em Gerontologia pela USP, com Extensão pela Universidad Estatal Del Valle de Toluca. Membro do Grupo de Estudos em Treino Cognitivo da Universidade de São Paulo. E-mail: santosgabriela084@gmail.com.
Thais Bento Lima da Silva – Gerontóloga formada pela Universidade de São Paulo (USP). Mestra e Doutora em Ciências com ênfase em Neurologia Cognitiva e do Comportamento, pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Docente do curso de Bacharelado e de Pós-Graduação em Gerontologia da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (EACH-USP), pesquisadora do Grupo de Neurologia Cognitiva e do Comportamento da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo e diretora científica da Associação Brasileira de Gerontologia (ABG). Membro da diretoria da Associação Brasileira de Alzheimer- Regional São Paulo. É parceira científica do Método Supera. Coordenadora do Grupo de Estudos em Treino Cognitivo da Universidade de São Paulo. E-mail: thaisbento@usp.br

Foto de Helena Jankovičová Kováčová/pexels.

 

 

 

 FONTE: https://portaldoenvelhecimento.com.br/transtorno-de-deficit-de-atencao-e-hiperatividade-em-pessoas-idosas-desafios-e-particularidades/#google_vignette

 

 

 

 

 

 

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