O que é a diabulimia e por que é tão difícil de identificar

Entre os transtornos que afetam pessoas com diabetes, há um específico: a diabulimia. O nome pode sugerir uma combinação de diabetes com bulimia, mas o conceito é mais preciso. Refere-se à prática de omitir intencionalmente as doses de insulina com o objetivo de perder peso. Sem insulina, o organismo não absorve a glicose dos alimentos. Dessa forma, as calorias são eliminadas pela urina, num processo chamado glicosúria.

A insulina é um hormônio anabolizante, responsável por manter a glicose estável e permitir que as células absorvam energia. Nesse contexto, quando alguém com diabetes tipo 1 inicia o tratamento, é comum recuperar o peso perdido antes do diagnóstico. Para adolescentes já sensíveis à própria imagem, essa mudança pode desencadear um comportamento de risco: manipular a insulina como forma de controlar o corpo.

“Tanto os familiares como os profissionais de saúde que participam do tratamento, sobretudo de adolescentes e jovens com diabetes, devem ser capacitados para suspeitarem e diagnosticarem de forma precoce a presença de um transtorno alimentar”, orienta a psicóloga Priscila Pecoli, Coordenadora do Departamento de Psicologia da SBD.

Os riscos de ignorar o problema

Omitir a insulina pode parecer, para quem está nesse ciclo, uma forma de controle. No entanto, os efeitos para o organismo são graves. A descompensação aguda da glicose pode evoluir para cetoacidose diabética, que exige internação de emergência e representa risco de vida.

Além disso, a hemoglobina glicada fica cronicamente elevada. Na maioria dos casos, ultrapassa 10%, bem acima da meta de bom controle, que é igual ou inferior a 7%. Com o passar do tempo, surgem complicações precoces como retinopatia, nefropatia e neuropatia diabética.

O problema é ainda amplificado pelo estigma. A psicóloga Priscila Pecoli alerta que o medo do julgamento é uma barreira real ao diagnóstico.

“Existe um estigma que não é apenas um sentimento ruim, que acaba sendo mais uma barreira clínica real. Com medo do preconceito, as pessoas decidem esperar antes de ir ao médico, e essa espera tem um custo alto. Quanto mais tarde o diagnóstico, mais difícil é o tratamento. No contexto do diabetes, isso é ainda mais grave, porque enquanto a pessoa adia a busca por ajuda, o controle glicêmico se deteriora junto com a saúde emocional”, alerta a especialista.

No caso de quem convive com diabetes, esse silêncio tem uma camada a mais: além da vergonha do transtorno alimentar, existe o medo de decepcionar a equipe de saúde ou os familiares que acompanham o tratamento. Muitos chegam ao consultório com hemoglobinas glicadas altíssimas sem nunca ter falado sobre a omissão de insulina.

Por outro lado, a especialista defende que consultórios devem se tornar espaços livres de julgamento.

“Um consultório sem julgamento não é apenas mais agradável. Tem um efeito terapêutico. Quando a pessoa sente que pode falar sobre o que está fazendo com a insulina, sobre o medo de engordar, sobre a relação difícil com a comida, sem ser repreendida, ela começa a se responsabilizar pelo próprio cuidado.” Psicóloga Priscila Pecoli | Coordenadora do Departamento de Psicologia da SBD

A mudança começa pela postura dos profissionais de saúde, mas também passa pela família. Um olhar sem julgamento em casa é tão importante quanto no consultório.

Sinais que pedem atenção imediata

A SBD orienta familiares e equipes de saúde a ficarem atentos a um conjunto de sinais. Nenhum deles, isoladamente, confirma um diagnóstico, mas a combinação de dois ou mais deles já justifica uma conversa franca com a equipe de saúde:

Sinais de alerta

• Hemoglobina glicada constantemente elevada, acima de 9%, sem explicação aparente
• Hipoglicemias frequentes sem causa identificada
• Preocupação excessiva com peso e imagem corporal
• Abandono ou manipulação das doses de insulina
• Variações súbitas de peso
• Comportamentos alimentares restritivos ou compulsivos

Nesse grupo, porém, o risco é ainda maior: meninas adolescentes com diabetes tipo 1 têm chance 2 a 3 vezes superior de desenvolver um transtorno alimentar.

O que fazer diante da suspeita

Portanto, ao identificar qualquer um desses sinais, a orientação da SBD é buscar uma equipe interdisciplinar especializada em diabetes e transtornos alimentares. Essa equipe deve ser formada, no mínimo, por endocrinologista, psicólogo e nutricionista. A participação ativa da família também é fundamental, não como vigilância, mas como rede de apoio.

Nesse sentido, a campanha deste ano reforça: recuperação real é possível, com cuidado real e sem estigma. O Dia Mundial de Ação para os Transtornos Alimentares é marcado com monumentos iluminados de lilás, símbolo do alerta global desde 2016. Neste 2 de junho, o Portal Um Diabético se une ao movimento para lembrar: transtornos alimentares são doenças tratáveis. Portanto, reconhecê-las a tempo faz toda a diferença.

Saúde mental e diabetes: como agir após o diagnóstico? | DiabetesCast #18