“MEU PAI TEM ALZHEIMER E USA PRÓTESE DENTÁRIA. DEVO DEIXÁ-LA NA BOCA O DIA TODO E TAMBÉM PARA DORMIR?”
Essa
parece uma questão simples, mas merece atenção pois quando uma pessoa
com Alzheimer usa prótese dentária, não basta pensar apenas nos dentes,
precisamos observar a
boca, a capacidade de mastigar e engolir, o estado da prótese e,
principalmente, se aquela pessoa ainda consegue utilizá-la com
segurança, e existe um detalhe importante...
Uma
prótese que foi perfeitamente segura durante muitos anos pode deixar de
ser segura conforme a pessoa envelhece e a demência progride.
DURANTE O DIA, ELE PODE USAR A PRÓTESE?
Em
geral, uma prótese bem adaptada pode ser utilizada durante o período em
que a pessoa está acordada, especialmente nas refeições, quando ela
contribui para a mastigação, fala e conforto, mas o cuidador precisa
observar:
A pessoa mastiga normalmente?
A prótese se movimenta quando ela fala ou come?
Há dificuldade para engolir?
A pessoa consegue compreender que aquilo está dentro da boca?
Essas perguntas tornam-se particularmente importantes na demência.
De modo geral, não é recomendado dormir continuamente com próteses dentárias removíveis,
salvo alguma orientação específica do dentista para aquele paciente.
Retirá-las durante o sono permite descanso dos tecidos que ficam em
contato com a prótese e facilita a higiene da boca e do próprio
aparelho.
O
uso noturno contínuo também está associado a problemas na mucosa e pode
favorecer condições como a estomatite relacionada à prótese.
Portanto, não devemos pensar:
“Se ele usa durante o dia, pode ficar com ela 24 horas.”
A boca também precisa de um período sem a prótese.
MAS NO ALZHEIMER EXISTE OUTRA QUESTÃO...
Conforme
a doença progride, a pessoa pode perder a capacidade de cuidar sozinha
da prótese, ela pode esquecer de retirá-la, pode retirar e guardar em
lugares improváveis, pode não permitir que alguém mexa em sua boca.
Pode
não compreender por que aquele objeto precisa ser colocado ou retirado,
pode até deixar de reconhecer a prótese como algo que lhe pertence e é
por isso que o cuidado odontológico precisa acompanhar as mudanças
cognitivas e funcionais.
“ELE SEMPRE USOU ESSA PRÓTESE E AGORA NÃO QUER MAIS. É TEIMOSIA?”
Não
conclua isso antes de examinar a boca pois uma pessoa com Alzheimer
pode ter dificuldade crescente para comunicar dor e desconforto e ela
talvez não consiga dizer:
“Minha gengiva está machucada.”
Em vez disso, pode simplesmente tirar a prótese, cuspir, recusar alimentos, ficar irritada durante a refeição ou afastar a mão de quem tenta colocá-la.
O comportamento pode ser a maneira que aquela pessoa encontrou para comunicar desconforto.
A PRÓTESE PODE DEIXAR DE SERVIR?
Sim,
a boca não permanece igual durante toda a vida, alterações dos tecidos
de suporte, perda óssea, condições bucais e mudanças corporais podem
modificar o encaixe da prótese.
Em idosos frágeis, inclusive, mudanças
importantes de peso podem acompanhar alterações que merecem avaliação, e
uma prótese que antes estava firme pode começar a movimentar-se.
E aí surge um problema que não deve ser ignorado.
PRÓTESE FROUXA EM UMA PESSOA COM DEMÊNCIA MERECE AVALIAÇÃO
Se
a prótese está muito instável, desloca-se durante a alimentação ou a
pessoa já apresenta alterações importantes de mastigação ou deglutição,
não é adequado simplesmente continuar colocando-a porque “ele sempre usou”.
A segurança precisa ser reavaliada.
Em
pessoas com demência avançada ou disfagia, a decisão sobre continuar
utilizando determinada prótese deve ser individualizada com avaliação
odontológica e, quando necessário, da equipe responsável pela
deglutição.
E SE ELE TENTAR ENGOLIR A PRÓTESE?
Uma
prótese removível solta ou quebrada pode representar risco de
deslocamento, aspiração ou ingestão, embora esses eventos não ocorram
com todas as pessoas.
Se uma prótese desaparecer e houver possibilidade de ela ter sido engolida ou aspirada, especialmente se surgirem tosse súbita, engasgo, dificuldade para respirar, dor ou dificuldade para engolir, procure atendimento imediatamente.
Dificuldade respiratória ou suspeita de obstrução das vias aéreas é uma emergência.
RETIRAR A PRÓTESE SIGNIFICA QUE NÃO PRECISA MAIS HIGIENIZAR A BOCA?
Não, esse é um erro importante, mesmo uma pessoa sem dentes naturais precisa de higiene bucal.
Gengivas,
língua, céu da boca e demais tecidos da boca acumulam resíduos e
precisam ser observados e higienizados adequadamente, e se ainda houver
dentes naturais, eles continuam precisando de escovação.
Prótese limpa em uma boca sem higiene não significa boa saúde bucal.
E A PRÓTESE TAMBÉM PRECISA SER LIMPA
A
prótese deve ser retirada e higienizada regularmente, conforme
orientação odontológica, não basta enxaguá-la rapidamente, resíduos de
alimentos e biofilme podem permanecer aderidos à superfície.
Também
é importante ter cuidado durante a limpeza para não deixá-la cair e
quebrar. Uma estratégia simples é realizar a higienização sobre uma pia
protegida ou recipiente adequado, reduzindo o impacto caso ela escape
das mãos.
E atenção aos produtos utilizados.
Não improvise com substâncias abrasivas, água muito quente ou produtos que não sejam apropriados para aquele tipo de prótese, pois ela pode ser danificada ou deformada.
O dentista pode orientar a melhor forma de higienização e armazenamento de acordo com o material da prótese.
OLHE A BOCA TODOS OS DIAS
Quando retirar a prótese, aproveite para observar:
• vermelhidão persistente;
• áreas esbranquiçadas ou avermelhadas;
• dor ou reação de desconforto ao tocar;
• prótese quebrada, rachada ou com partes cortantes;
• dificuldade nova para mastigar ou engolir.
Uma
lesão que persiste precisa ser examinada e não tente simplesmente
resolver colocando mais adesivo na prótese ou deixando de retirá-la.
“MAS ELE NÃO DEIXA EU TIRAR A PRÓTESE.”
Não
transforme a higiene da boca em uma disputa, para algumas pessoas com
Alzheimer, alguém aproximar a mão de sua boca pode ser interpretado como
ameaça.
Tente
realizar o cuidado em um momento tranquilo, explique com frases curtas,
mostre o que será feito e dê tempo para que a pessoa processe a
informação.
Quando possível, preserve a participação dela.
Às vezes, entregar a escova e demonstrar o movimento funciona melhor do que tentar fazer tudo por ela imediatamente.
Se
houver resistência persistente, dor, agressividade ou impossibilidade
de realizar a higiene, converse com o dentista e com a equipe que
acompanha a pessoa para adaptar a abordagem.
Não existe uma única regra que sirva para todas as fases do Alzheimer
A pergunta não deve ser somente:
“Ele ainda consegue usar essa prótese com conforto e segurança?”
Enquanto
estiver bem adaptada, funcional e segura, ela pode continuar sendo
muito útil, mas conforme a doença progride, o cuidado precisa acompanhar
a pessoa.
O
que funcionava há cinco anos pode não funcionar hoje, o que era seguro
na fase inicial pode precisar ser reavaliado na fase avançada e retirar
uma prótese que deixou de ser segura não significa abandonar o cuidado
com a boca, muito pelo contrário, significa adaptar o cuidado à condição atual daquela pessoa.
Por
isso, a pessoa com Alzheimer também precisa de acompanhamento
odontológico, inclusive quando já não consegue reclamar de dor, porque
chega um momento em que ela talvez não consiga dizer:
“Minha boca está doendo.”
E caberá ao cuidador perceber o que o comportamento, a alimentação e a própria boca estão tentando mostrar.
Instituto Berna Almeida (@institutobernalmeida)