Todo dia 2 de junho, o mundo se une em torno de uma causa ainda pouco discutida: os transtornos alimentares. A data foi instituída em 2015 pela Academy for Eating Disorders (AED). Nesse contexto, familiares, pessoas com diabetes e profissionais de saúde são convocados a ampliar a consciência sobre essas condições.
Neste ano, o tema da campanha internacional é “Diga Não ao Estigma. Comece a Cuidar. Junto podemos!”, um chamado direto ao combate ao preconceito. Para quem convive com diabetes, a data tem um significado ainda mais específico.
Transtornos alimentares e diabetes: por que essa relação é mais comum do que parece
Os transtornos alimentares afetam dezenas de milhões de pessoas no mundo e têm a segunda taxa de mortalidade mais alta entre as doenças psiquiátricas. Além disso, podem ocorrer em qualquer faixa etária, gênero, raça ou classe socioeconômica, inclusive em pessoas com diabetes. Os dados ajudam a dimensionar o problema:
Dados sobre transtornos alimentares no Brasil e no mundo
• Cerca de 70 milhões de pessoas convivem com transtornos alimentares no mundo • No Brasil, esse número chega a aproximadamente 11 milhões • Cerca de 4,7% da população brasileira convive com algum transtorno alimentar, segundo a OMS • Entre adolescentes, essa taxa sobe para 10% • A pandemia agravou o quadro global: internações por transtorno alimentar cresceram 48% no mundo, segundo o International Journal of Eating Disorders
Nesse contexto, a própria natureza do manejo do diabetes cria condições favoráveis ao desenvolvimento dessas condições. A necessidade de monitorar a alimentação constantemente e ajustar doses de insulina são fatores relevantes. Por isso, a ocorrência de transtornos alimentares é de 2,5 a 3 vezes mais frequente em pessoas com diabetes do que na população geral. No caso do tipo 1, pré-adolescentes e adolescentes são os mais vulneráveis.
A Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD) recomenda, portanto, atenção aos sinais de associação entre as duas condições. Entre eles estão variações súbitas de peso, preocupação excessiva com a imagem corporal e o uso de métodos não saudáveis para perder peso.
O que é a diabulimia e por que é tão difícil de identificar
Entre os transtornos que afetam pessoas com diabetes, há um específico: a diabulimia. O nome pode sugerir uma combinação de diabetes com bulimia, mas o conceito é mais preciso. Refere-se à prática de omitir intencionalmente as doses de insulina com o objetivo de perder peso. Sem insulina, o organismo não absorve a glicose dos alimentos. Dessa forma, as calorias são eliminadas pela urina, num processo chamado glicosúria.
A insulina é um hormônio anabolizante, responsável por manter a glicose estável e permitir que as células absorvam energia. Nesse contexto, quando alguém com diabetes tipo 1 inicia o tratamento, é comum recuperar o peso perdido antes do diagnóstico. Para adolescentes já sensíveis à própria imagem, essa mudança pode desencadear um comportamento de risco: manipular a insulina como forma de controlar o corpo.
“Tanto os familiares como os profissionais de saúde que participam do tratamento, sobretudo de adolescentes e jovens com diabetes, devem ser capacitados para suspeitarem e diagnosticarem de forma precoce a presença de um transtorno alimentar”, orienta a psicóloga Priscila Pecoli, Coordenadora do Departamento de Psicologia da SBD.
Os riscos de ignorar o problema
Omitir a insulina pode parecer, para quem está nesse ciclo, uma forma de controle. No entanto, os efeitos para o organismo são graves. A descompensação aguda da glicose pode evoluir para cetoacidose diabética, que exige internação de emergência e representa risco de vida.
Além disso, a hemoglobina glicada fica cronicamente elevada. Na maioria dos casos, ultrapassa 10%, bem acima da meta de bom controle, que é igual ou inferior a 7%. Com o passar do tempo, surgem complicações precoces como retinopatia, nefropatia e neuropatia diabética.
O problema é ainda amplificado pelo estigma. A psicóloga Priscila Pecoli alerta que o medo do julgamento é uma barreira real ao diagnóstico.
“Existe um estigma que não é apenas um sentimento ruim, que acaba sendo mais uma barreira clínica real. Com medo do preconceito, as pessoas decidem esperar antes de ir ao médico, e essa espera tem um custo alto. Quanto mais tarde o diagnóstico, mais difícil é o tratamento. No contexto do diabetes, isso é ainda mais grave, porque enquanto a pessoa adia a busca por ajuda, o controle glicêmico se deteriora junto com a saúde emocional”, alerta a especialista.
No caso de quem convive com diabetes, esse silêncio tem uma camada a mais: além da vergonha do transtorno alimentar, existe o medo de decepcionar a equipe de saúde ou os familiares que acompanham o tratamento. Muitos chegam ao consultório com hemoglobinas glicadas altíssimas sem nunca ter falado sobre a omissão de insulina.
Por outro lado, a especialista defende que consultórios devem se tornar espaços livres de julgamento.
“Um consultório sem julgamento não é apenas mais agradável. Tem um efeito terapêutico. Quando a pessoa sente que pode falar sobre o que está fazendo com a insulina, sobre o medo de engordar, sobre a relação difícil com a comida, sem ser repreendida, ela começa a se responsabilizar pelo próprio cuidado.” Psicóloga Priscila Pecoli | Coordenadora do Departamento de Psicologia da SBD
A mudança começa pela postura dos profissionais de saúde, mas também passa pela família. Um olhar sem julgamento em casa é tão importante quanto no consultório.
Sinais que pedem atenção imediata
A SBD orienta familiares e equipes de saúde a ficarem atentos a um conjunto de sinais. Nenhum deles, isoladamente, confirma um diagnóstico, mas a combinação de dois ou mais deles já justifica uma conversa franca com a equipe de saúde:
Sinais de alerta
• Hemoglobina glicada constantemente elevada, acima de 9%, sem explicação aparente • Hipoglicemias frequentes sem causa identificada • Preocupação excessiva com peso e imagem corporal • Abandono ou manipulação das doses de insulina • Variações súbitas de peso • Comportamentos alimentares restritivos ou compulsivos
Nesse grupo, porém, o risco é ainda maior: meninas adolescentes com diabetes tipo 1 têm chance 2 a 3 vezes superior de desenvolver um transtorno alimentar.
O que fazer diante da suspeita
Portanto, ao identificar qualquer um desses sinais, a orientação da SBD é buscar uma equipe interdisciplinar especializada em diabetes e transtornos alimentares. Essa equipe deve ser formada, no mínimo, por endocrinologista, psicólogo e nutricionista. A participação ativa da família também é fundamental, não como vigilância, mas como rede de apoio.
Nesse sentido, a campanha deste ano reforça: recuperação real é possível, com cuidado real e sem estigma. O Dia Mundial de Ação para os Transtornos Alimentares é marcado com monumentos iluminados de lilás, símbolo do alerta global desde 2016. Neste 2 de junho, o Portal Um Diabético se une ao movimento para lembrar: transtornos alimentares são doenças tratáveis. Portanto, reconhecê-las a tempo faz toda a diferença.
Jornalista com quase 30 anos de experiência em televisão no interior de São Paulo, atuando como coordenadora de conteúdo e responsável por produção de pautas. Atualmente é produtora executiva na TB Content.
Aviso médico: As informações deste artigo têm caráter exclusivamente educativo e não substituem a consulta com médico e/ou nutricionista. Cada pessoa com diabetes tem necessidades individuais , busque sempre orientação profissional antes de alterar sua dieta ou tratamento.
Qual memória de comida da infância você traz com você? Desta vez o ADJ 50+ será sobre "Memória Afetiva", nossa nutricionista, psicóloga e enfermeira irão estimular estas lembranças com práticas na cozinha. 10 de junho - quarta-feira - 10h - Gratuito - Inscrições pelo 11 3675-3266 ou pelo whatsapp 11 97148-0465. Na Rua Padre Antonio Tomas, 213, Água Branca, São Paulo.
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Aviso médico: As informações deste artigo têm caráter exclusivamente educativo e não substituem a consulta com médico e/ou nutricionista. Cada pessoa com diabetes tem necessidades individuais , busque sempre orientação profissional antes de alterar sua dieta ou tratamento.
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Neste Dia Mundial do Hipoparatireoidismo, reforçamos a importância da informação, do diagnóstico precoce, do acompanhamento contínuo e do respeito às necessidades de quem convive com essa condição.
Dar visibilidade às doenças raras é um passo fundamental para reduzir barreiras, promover o cuidado integral e garantir mais qualidade de vida para pacientes e familiares.
Aviso médico: As informações deste artigo têm caráter exclusivamente educativo e não substituem a consulta com médico e/ou nutricionista. Cada pessoa com diabetes tem necessidades individuais , busque sempre orientação profissional antes de alterar sua dieta ou tratamento.