O “Março Verde” aparece, em algumas agendas brasileiras de campanhas de saúde, como um período de conscientização sobre neoplasias e fatores de risco, e isso abre uma boa janela para falar de um tumor frequentemente silencioso: o câncer de fígado, em especial o carcinoma hepatocelular (CHC/HCC), que costuma surgir em fígados já doentes (cirrose e hepatites crônicas, por exemplo).
No Brasil, o câncer de fígado não está entre os mais incidentes, mas seu impacto é relevante porque muitos casos são diagnosticados tardiamente. Na estimativa do INCA para 2023, houve 6.390 casos novos em homens (2,7% dos cânceres, excluindo pele não melanoma). Na mortalidade, dados de 2021 mostram 6.061 óbitos em homens e 4.535 em mulheres por “fígado e vias biliares intra-hepáticas”.
No mundo, o cenário é ainda mais contundente: em estatísticas globais recentes, o câncer de fígado figura entre os principais responsáveis por mortes por câncer.
Por que o câncer de fígado é tão desafiador?
- Ele costuma ser silencioso por anos.
- A maioria dos casos acontece em pessoas com doença hepática crônica (cirrose, hepatite B ou C, doença hepática gordurosa associada à disfunção metabólica (MASLD/MASH) e uso nocivo de álcool)).
- Quando os sintomas aparecem (dor, emagrecimento, icterícia, aumento do abdome), muitas vezes já há doença mais avançada.
Esse “atraso diagnóstico” é a parte cruel e, paradoxalmente, a parte mais prevenível do problema.
O que mais aumenta o risco? (o núcleo “prevenível”)
A boa notícia (que vem com responsabilidade): uma parcela importante do risco é modificável e há consenso internacional sobre os principais alvos.
1) Hepatite B (HBV)
A hepatite B é causa importante de cirrose e câncer de fígado. A OMS destaca que, em 2022, a hepatite B esteve associada a cerca de 1,1 milhão de mortes, sobretudo por cirrose e carcinoma hepatocelular, e reforça que a vacina é segura e eficaz.
Além disso, há evidência de impacto populacional da vacinação na redução de câncer hepático relacionado ao HBV.
2) Hepatite C (HCV)
A hepatite C é tratável (com antivirais de ação direta) e a cura reduz progressão de doença hepática e, portanto, risco futuro.
3) Álcool
O consumo nocivo aumenta risco de cirrose e câncer de fígado de forma dose-dependente.
4) MASLD/MASH (esteatose hepática associada à disfunção metabólica)
Obesidade, diabetes tipo 2 e síndrome metabólica se tornaram motores crescentes do risco hepático em vários países. Em 2025, uma Comissão do The Lancet chamou atenção para a trajetória de crescimento global e para a grande fatia potencialmente prevenível, com foco em metabolismo, álcool e hepatites virais.
“Rastreamento”: para quem faz sentido e como é feito
Aqui é onde a prevenção vira prática clínica.
Para pessoas de alto risco (especialmente cirrose, e alguns subgrupos com hepatite B crônica), grandes sociedades recomendam vigilância periódica para detectar CHC mais cedo. A orientação convergente é ultrassom abdominal a cada ~6 meses, com ou sem AFP (alfa-fetoproteína), dependendo do contexto e diretriz.
Importante: isso não é “check-up” para população geral. A estratégia é voltada a grupos com risco suficientemente alto para que os benefícios superem falsos positivos, ansiedade e custos.
Sinais de alerta (especialmente em quem já tem doença do fígado)
Procure avaliação médica se houver:
- Perda de peso inexplicada, fadiga persistente
- Dor/desconforto no quadrante superior direito do abdome
- Icterícia (pele/olhos amarelados), urina escura
- Ascite (barriga d’água), inchaço de pernas
- Piora súbita de um quadro de cirrose “estável”
Esses sinais não são específicos, mas em contexto de risco não devem ser normalizados.
O “checklist” do Março Verde que realmente muda desfecho
- Vacinação contra hepatite B (e checar status vacinal).
- Testagem para HBV e HCV em grupos indicados e tratamento quando positivo.
- Redução de álcool (ou abstinência, quando indicada).
- Controle de peso e diabetes (MASLD/MASH entra aqui).
- Se você tem cirrose (por qualquer causa): conversar sobre vigilância a cada 6 meses.
Conclusão
O câncer de fígado é um exemplo clássico de oncologia em que saúde pública, hepatologia e prevenção precisam andar juntas. “Março Verde” funciona como gatilho de comunicação, mas o impacto real vem de rotinas simples e consistentes: vacinar, testar, tratar, reduzir exposições e vigiar quem é alto risco.
Referências
- Instituto Nacional de Câncer (INCA). Estatísticas de câncer: números de incidência estimada (2023) e mortalidade (2021) por localização primária do tumor e sexo. Brasília: INCA; [acesso em 26 fev 2026].
- World Health Organization. Hepatitis B – Fact sheet. Updated 23 Jul 2025.
- Bray F, et al. Global cancer statistics 2022: GLOBOCAN estimates of incidence and mortality worldwide for 36 cancers in 185 countries. CA Cancer J Clin. 2024.
- Singal AG, et al. AASLD Practice Guidance on prevention, diagnosis, and treatment of hepatocellular carcinoma. Hepatology. 2023.
- Sangro B, et al. EASL Clinical Practice Guidelines on the management of hepatocellular carcinoma. J Hepatol. 2025.
- The Lancet. Reversing the rise of liver cancer. 28 Jul 2025.
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Carla



