sexta-feira, 10 de novembro de 2017

A obesidade faz bem para a indústria da alimentação


 
Dr. Reginaldo Albuquerque
  • Professor da UnB (1967-1981)
  • Superintendente de Ciências da Saúde CnPq (1982-1991)
  • Editor do site da Sociedade Brasileira de Diabetes (2005-2011)
  • Ex-Consultor em Educação da UnaSus/Fiocruz


A obesidade faz bem para a indústria da alimentação



O 11 de outubro é celebrado mundialmente como o dia mundial de combate a obesidade. É uma oportunidade única para as trocas de experiências entre os vários países. Uma vez superada a fome como problema estrutural, a agenda para os próximos anos concentra esforços na redução do consumo de alimentos processados e ultra processados.
Neste ano, a International Obesity Taskforce (IOTF), enviou uma carta de congratulação ao Governo brasileiro, pela adoção de medidas para a prevenção da obesidade. Entre elas estão: a regulamentação do marketing de alimentos, restrições na alimentação escolar e o monitoramento das tendências de obesidade.
A entidade considera que Brasil e Inglaterra lideram a lista de países que mais lutam contra a obesidade. De acordo com o texto, “se outros países seguirem a direção tomada pelo Brasil, teremos muitas boas notícias para apresentar nas próximas conferências sobre a prevenção da obesidade”
Apesar desse entusiasmo as estatísticas mostram que os resultados obtidos ainda são bem precários, conforme mostram os dados do Reino Unido no gráfico abaixo.
O alvo inicial foi o açúcar essencialmente aquele acrescentado, além do que já está no alimento. A OMS recomenda 22,5 g para uma criança de 4 a 5 anos. É preocupante ver toda essa quantidade de açúcar que não vem da lactose nem da frutose chegar às crianças via suco de caixinha e biscoitos.
A proposta de redução para este ano foi de um corte de 5% na quantidade do açúcar adicionado aos refrigerantes. A meta para os próximos 4 anos é de 20%. Só para lembrar: uma lata de Coca Cola hoje tem 36g de açúcar. Aquele(a) que tomar 2 latas por dia, durante um ano, terá ingerido aproximadamente 22 kg de açúcar (figura 1). Uma senhora quantidade.
A proposta inglesa de uma redução voluntária do conteúdo de açúcar das bebidas, como refrigerantes, foi considerada fraca. A Associação Médica Britânica não acredita que planos baseados no voluntarismo deem bons resultados. Um ministro considerou-a ambiciosa. Uma deputada apontou o perigo dos lobistas das grandes indústrias influenciarem nas decisões.
A indústria do açúcar diz que o problema não é só o açúcar e que a política deve ser holística, ou seja, incluir outros alimentos e que as empresas de bebidas já reduziram 16% entre 2012 e 2016. Holístico para elas significa incluir todos os alimentos que contenham açúcar.
No Brasil, as sociedades científicas, principalmente as de endocrinologia, pediatria, obesidade, cardiologia, nutrição e nutrologia – entre outras – vêm enfrentando estes problemas. Várias tem sido as reuniões no Congresso Nacional, inclusive a realização de várias audiências públicas, onde se discute uma taxação sobre o uso do açúcar nos alimentos. No mundo, só Hungria e México adotaram esta medida e os seus primeiros resultados deverão ser publicados no próximo ano.
Aqui, já temos um grande sucesso com o programa de diminuição do fumo, que reduziu para 14% o consumo na população. Valeu, uma medida obrigatória, proibindo o fumo em lugares fechados, além da exclusão de propagandas nas TVS. Que venham as medidas legislativas mandatórias quanto ao açúcar, sal e gorduras. Esta será uma das ações mais importantes na saúde pública brasileira. Menos obesos, menos diabetes, menos câncer, menos custos e mais recursos para as ações básicas de saúde.
obs. conteúdo meramente informativo procure seu médico
abs
Carla
http://www.diabetes.org.br/publico/temas-atuais-sbd/1588-a-obesidade-faz-bem-para-a-industria-da-alimentacao

Diabetes mellitus e Saúde Óssea




 
Dr. Mateus Dornelles Severo

  • CREMERS 30.576
  • Médico Endocrinologista
  • Doutor em Endocrinologia/UFRGS



O tratamento do paciente que convive com diabetes mellitus é complexo. Os cuidados não se restringem ao controle da glicemia. Tanto os pacientes diabéticos do tipo 1 quanto do tipo 2, muitas vezes, apresentam comorbidades ou complicações associadas à doença. Pressão e colesterol altos, problemas cardíacos e vasculares, acometimento dos olhos, nervos e rins são de amplo conhecimento. Porém, não infrequentemente, a saúde óssea do paciente diabético fica negligenciada. Isso pode elevar o risco de fraturas. Vamos entender porque.
Nos pacientes com diabetes tipo 1 existe deficiência absoluta de insulina. Além de ser importante para a captação da glicose pelas células, a insulina também tem efeito anabólico, ou seja, estimula o crescimento de diferentes tecidos do nosso organismo. Diversos estudos mostram menor densidade mineral óssea em pacientes com diabetes tipo 1. Além disso, crianças diabéticas acabam tendo um pico de massa óssea menor. Isto é, por formarem menos osso, têm uma "poupança óssea menor", o que propicia o surgimento de osteopenia ou osteoporose em idade mais precoce.
No diabetes tipo 2, especialmente no início da doença, os níveis de insulina estão elevados. Isto acontece porque o pâncreas aumenta a secreção para tentar vencer a resistência à ação deste hormônio. Logo, pacientes com diabetes tipo 2 podem ter massa óssea aumentada. Mas não se engane! Este osso, apesar de parecer mais denso, na realidade é mais frágil. O diabetes, tipo 2 ou tipo 1, interfere nos mecanismos de remodelamento ósseo e na formação da matriz de colágeno. Isto quer dizer que a estrutura microscópica do osso fica comprometida. Imagine o pilar de uma ponte. A malha de aço é o colágeno e o concreto é o cálcio. Se a malha de aço não for boa, a ponte corre um risco maior de cair mesmo com concreto na quantidade certa. Nos nossos ossos acontece algo parecido. Por isso o diabetes aumenta o risco de fraturas independentemente da massa óssea (teor de cálcio).
Além disso, como dito no início do texto, muitos pacientes diabéticos, especialmente os de longa data, convivem com complicações. Diminuição da visão ou neuropatia podem aumentar o risco de quedas. E quem cai com ossos frágeis, pode quebrá-los. Sem falar que o simples uso de alguns medicamentos para o tratamento da doença (glitazonas) pode aumentar o risco de fraturas.
Apesar do aumento no risco de fraturas, a avaliação da doença óssea no paciente diabético segue as mesmas recomendações dos pacientes não diabéticos. Além da avaliação clínica e metabólica, a densitometria óssea traz informações úteis para decisão terapêutica, que deve ser individualizada. Além do manejo adequado do diabetes, entre as opções de tratamento estão suplementação de cálcio e de vitamina D e uso medicamentos que ajudam a preservar a densidade óssea, como os bisfosfonados. Exercícios físicos e prevenção/tratamento de complicações também são importantes para manter os ossos intactos.
Se você convive com diabetes, especialmente se há vários anos ou com complicações, procure seu médico e converse a respeito. Como tudo no diabetes, aqui a prevenção também é a melhor abordagem.
Fonte: Bone disease in diabetes mellitus - UpToDate OnLine

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abs
Carla
http://www.diabetes.org.br/publico/diabetes-em-debate/1585-diabetes-mellitus-e-saude-ossea

Diabetes e memória metabólica: uma breve história do tempo – e o quanto ele é valioso

Diabetes e memória metabólica: uma breve história do tempoA cada ano novos medicamentos para o controle do Diabetes tem chegado ao mercado. Desde levar o rins a filtrar uma quantidade maior de açúcar (nossos inibidores de SLGT2) , até estimular a conversa hormonal intestino cérebro (análogos de GLP-1), passando pelo desenvolvimento de insulinas de ultra longa duração, todas as armas tem se mostrado interessantes quando o assunto é controlar nossos pacientes, baseado em escolhas individualizadas. No entanto, existe uma arma que é fundamental neste contexto e independe de individualização: o tempo.

Tempo é sinônimo de memória metabólica. Fenômeno descrito a partir da observação dos efeitos prolongados do bom controle glicêmico em grandes estudos clínicos. Em resumo, quanto melhor e mais brevemente se controla o diabetes melhor será a evolução do paciente, com menores complicações crônicas. Além disso, observou-se benefício nos estudos daquele período em que os pacientes estiveram mais controlados, com também benefícios prolongados – o que chamamos de efeito legado.
E o que tiramos de lição sobre isso? A primeira delas é o diagnóstico. Não deixar de rastrear Diabetes e Pré-diabetes naqueles pacientes com fatores de risco e uma vez feito o diagnóstico, não retardar o tratamento. Para profissionais de todas as áreas envolvidos no controle do Diabetes, a abordagem multidisciplinar como base de tratamento deve ser sedimentada como forma de alavancar processo de melhora nos níveis glicêmicos. 
A segunda lição é que a individualização do tratamento do paciente diabético depende também de considerar que existe um tempo em que você espera ver a melhora dos níveis de hemoglobina glicada e demais parâmetros metabólicos, e atrasar uma troca ou ajuste de medicamento pode fazer a diferença nos efeitos legado e de memória metabólica.
Tempo, para o diabético, pode ser medido em rins, retina, risco cardiovascular e outras complicações. Estarmos atentos para avaliar prontamente uma nova abordagem de tratamento é fazer o relógio andar a favor do nosso paciente.
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abs
Carla
http://www.diabetes.org.br/publico/colunas/88-dra-andressa-heimbecher-soares/1543-diabetes-e-memoria-metabolica-uma-breve-historia-do-tempo-e-o-quanto-ele-e-valioso

Dra. Andressa Heimbecher Soares
  • Endocrinologista
  • Especialista pela Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia.
  • Médica colaboradora do Grupo de Obesidade e Síndrome Metabólica do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP).
  • Membro Titular da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia e Membro Ativo da Endocrine Society.