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terça-feira, 6 de agosto de 2019

Ninguém sai do pesadelo Alzheimer, do mesmo jeito que entrou

16 de outubro de 2018
Ninguém sai do pesadelo Alzheimer, do mesmo jeito que entrou.
“Naquela noite, mamãe conversara quase a noite inteira, com os fantasmas que lhe faziam companhia e ela me parecia feliz, do jeito dela.
Para ela era tudo tão natural, como se todas as portas dos diversos universos paralelos estivessem escancaradas, e ela transitasse entre esses mundos com desenvoltura e intimidade, talvez maior do que conseguia neste plano tão confuso e limitante.
Ela via e ouvia, ria junto e se emocionava com as brincadeiras das crianças, e a visita das pessoas amadas que já tinham partido. Tudo estaria na mente “doente” dela, ou eu não conseguia ver porque minha mente “saudável” é extremamente limitada e o medo me cegava?
Nos momentos raros de lucidez, mamãe me perguntava que doença era aquela e chorava, porque sabia que estava trilhando um caminho sem volta. Eu sempre tentava confortá-la e depois, corria para a sala e chorava, porque sabia que ela e eu estávamos trilhando um caminho sem volta.
Sem retorno, sem placas de orientação, sem atalhos, sem caminhos alternativos. Alzheimer determina como será um pedaço da sua história, e não oferece nenhuma opção, ou plano B.
Ninguém sai do pesadelo Alzheimer, do mesmo jeito que entrou. Não sei se melhor, ou pior, mas com certeza, toda essa loucura e sofrimento produzem marcas profundas, na alma e no corpo de quem cuida e sobrevive a esse caos.
Tudo é assustador. Toda a impotência, fragilidade e impermanência humanas são escancaradas sem máscaras, sem filtro e sem nenhum preparo para não nos machucar com tanta realidade.
Não estamos preparados para tanta realidade, não nos preparamos para a velhice e nem para a morte e, de repente tudo isso é servido à nossa mesa, e não podemos nos recusar a comer TUDO, sem deixar nenhuma sobra e sem adicionar nenhum tempero.
Mamãe tremia de medo e gritava apavorada – “Mirinha mata essa lagarta que está subindo pela parede.” E eu dava uma chinelada na parede vazia, ela se acalmava e eu enlouquecia um pouco mais. E quando eu voltava para meu quarto, ficava imaginando que nós duas éramos apenas personagens de um espetáculo cruel, bonecos de um titereiro curioso tentando descobrir até onde o amor, a sanidade e a compaixão conseguem suportar.
Mamãe atravessou aquela porta e deve estar em algum lugar iluminado e com jardim lindo, conforme me contava, quando retornava de seus passeios por mundos paralelos. Eu continuo por aqui, tentando entender tudo isso e preparando o cenário para minha velhice. Aprender a envelhecer – esta talvez tenha sido uma boa lição que o Alzheimer me ensinou.
Estou tentando andar mais devagar para olhar as portas.
No nosso próximo encontro, vamos conversar um pouco sobre como adaptar a casa, para acolher o paciente.
Até lá!

obs. conteúdo meramente informativo procure seu médico
abs
Carla
http://alzheimer360.com/papo-de-cuidador-pesadelo-alzheimer/?fbclid=IwAR0hUfU3dxxLZ7A7oHN1P2burbf3kCzws_KjIZu2C30tKGMzokVQeDlaT8M

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