Diabetes tipo 1 é uma doença autoimune que exige uso diário de insulina. Saiba mais sobre o tratamento e a qualidade de vida
O diabetes é uma doença crônica caracterizada pela falta ou má absorção de insulina, hormônio produzido pelo pâncreas. O tipo 1 (DM1) normalmente surge na infância ou adolescência, sendo a faixa etária mais comum de 10 a 14 anos. Porém, embora seja menos comum, a doença também pode atingir adultos de qualquer idade.
Diferentemente do diabetes tipo 2 (DM2), que pode ser prevenido (ou, pelo menos, adiado) através de hábitos saudáveis, não há como evitar o aparecimento do diabetes tipo 1.
O diabetes tipo 1 é uma doença autoimune. Isso significa que o sistema imunológico passa a atacar as próprias células beta do pâncreas, responsáveis pela produção de insulina. Como consequência, o organismo passa a produzir pouca ou nenhuma insulina”, explica Lorena Lima Amato, endocrinologista e doutora pela Universidade de São Paulo (USP).
Por outro lado, no diabetes tipo 2 ocorre a resistência à insulina, geralmente associada a fatores como excesso de peso, predisposição genética, sedentarismo e envelhecimento.
“Se esses sinais passam despercebidos, o quadro pode evoluir de forma mais grave,
Principais sintomas e diagnóstico
O diabetes tipo 1 pode se manifestar de forma relativamente rápida, em especial em crianças e adolescentes, segundo a médica. Os sintomas clássicos da doença são:
- sede excessiva (polidipsia);
- aumento do volume e da frequência urinária (poliúria);
- perda de peso inexplicada;
- aumento da fome;
- cansaço;
- visão embaçada;
- retorno de escapes urinários ou xixi na cama (crianças pequenas).
“Se esses sinais passam despercebidos, o quadro pode evoluir de forma mais grave, cursando com dor abdominal, náuseas, vômitos e alterações de consciência que podem levar ao coma, complicação denominada cetoacidose diabética”, alerta Ricardo Perez, endocrinologista.
O diagnóstico é realizado através de exames de sangue que indicam alterações na glicose ou na hemoglobina glicada, além de exames para detectar a presença de anticorpos específicos, que confirmam a característica autoimune da doença e ajudam a diferenciá-la de outros tipos de diabetes.
O que é a cetoacidose diabética?
A cetoacidose diabética é uma complicação grave que acontece por falta importante de insulina. Amato explica que, sem insulina suficiente, o corpo não consegue usar adequadamente a glicose como fonte de energia e passa a quebrar gordura, produzindo corpos cetônicos. “O acúmulo dessas substâncias deixa o sangue mais ácido e pode causar desidratação, vômitos, dor abdominal, alteração do nível de consciência e, em casos graves, risco de morte.”
Segundo a médica, o risco é maior no diabetes tipo 1, especialmente no diagnóstico, quando a doença ainda não foi reconhecida, ou em situações como esquecimento de insulina, falha na bomba de insulina, infecções, vômitos ou doenças agudas. Por isso, sintomas como sede intensa, muita urina, perda de peso, vômitos e sonolência devem ser valorizados e investigados rapidamente.
Diabetes tipo 1 é mais grave que o tipo 2?
Não necessariamente. Mas, segundo Amato, ele pode ser considerado mais complexo quanto ao manejo diário porque exige insulina desde o diagnóstico, contagem de carboidratos das refeições, monitorização frequente da glicose e ajuste de doses conforme alimentação, atividade física, estresse, doenças intercorrentes e rotina escolar ou profissional.
“Isso não significa que o [manejo do] diabetes tipo 2 seja simples; ambos exigem cuidado contínuo. Mas o tipo 1 costuma demandar decisões terapêuticas várias vezes ao dia”, afirma.
Para Daniela Iguchi, endocrinologista do Hospital do Servidor Público Municipal (HSPM), em São Paulo (SP), tanto DM1 quanto DM2 são doenças complexas. “Porém, atualmente dispomos de tecnologias muito avançadas para monitoramento e tratamento do DM1, que exigem um conhecimento específico, mas, ao mesmo tempo, simplificam muito a vida de quem vive com o problema”, opina.
Complicações associadas ao DM1
As potenciais complicações do diabetes tipo 1 são basicamente as mesmas do tipo 2: problemas na visão (retinopatia), nos rins (nefropatia), nos nervos (neuropatia) e no sistema cardiovascular (infarto e AVC).
“Mas todas elas podem ser prevenidas desde que haja um bom controle da glicemia, associados à prevenção ou tratamento de outros agravantes, como hipertensão, hipercolesterolemia e obesidade, e cessação do tabagismo e uso de álcool, que também são fatores de risco”, esclarece Perez.
O especialista ressalta que é fundamental realizar o rastreio dessas complicações, no mínimo anualmente, através de avaliação médica e exames específicos.
Tratamento do diabetes tipo 1 exige uso diário de insulina
O tratamento do diabetes tipo 1 é baseado na reposição de insulina, que pode ser aplicada através de canetas, seringas ou bombas de infusão (sistemas de infusão contínua automatizados e controlados por sensores).
“A insulina pode ser utilizada através de múltiplas aplicações, em que haverá uma insulina basal, que controlará a glicemia nos intervalos entre as refeições; e uma insulina de ação rápida, responsável por controlar os aumentos de glicemia que acontecem todas as vezes que o paciente se alimenta”, explica Iguchi.
Em casos diagnosticados em fases muito iniciais, de acordo com a especialista, pode haver indicação de imunoterapia, com objetivo de retardar a progressão da doença.
Além da insulina, segundo Amato, o cuidado envolve ainda educação em diabetes, orientação nutricional, contagem de carboidratos, planejamento da atividade física, monitorização da glicose e prevenção de hipoglicemias. Em situações específicas, outras medicações podem ser consideradas, mas elas não substituem a insulina.
“Também é importante rastrear periodicamente doenças da tireoide, doença celíaca, colesterol, função renal, avaliação da retina, função renal, e outros aspectos da saúde, conforme idade e tempo de doença”, detalha a endocrinologista.
Suporte familiar e saúde mental
Por ser mais frequente em crianças e adolescentes, o diagnóstico de diabetes tipo 1 muda a rotina da família e pode gerar sobrecarga e sentimentos de culpa e insegurança.
“Os pais ajudam muito quando acolhem a criança ou adolescente sem transformar a doença em punição ou motivo de vigilância excessiva. É importante aprender sobre a doença aos poucos, criar uma rotina possível, envolver a escola, orientar cuidadores e familiares próximos, e permitir que a criança mantenha uma vida ativa e social”, orienta Amato.
Para Perez, compreender os sentimentos, ouvir e acolher as preocupações da criança ou adolescente fortalecem a confiança e reduzem a ansiedade em relação ao diagnóstico.
“Grupos ou associações de pacientes e famílias podem ser uma rede de apoio que traz acolhimento e conforto por proporcionar troca de experiências, convivência com outras crianças com DM1, atividades educacionais e até mesmo orientação jurídica especializadas e oportunidades de atividades de lazer integradas como acampamentos”, destaca o médico.
A saúde mental também precisa ser acompanhada, já que crianças e adolescentes podem sentir tristeza, raiva, vergonha, medo de hipoglicemia ou cansaço do tratamento. “O apoio psicológico pode ser muito útil, tanto para o paciente quanto para os pais. Uma família bem orientada, acolhedora e sem julgamento melhora muito a adaptação ao tratamento”, afirma Amato.
Qualidade de vida
Embora seja uma doença crônica que exige cuidado constante, o diabetes tipo 1 não impede que o indivíduo consiga viver bem. Para Amato, com o acompanhamento e tratamento adequado, educação em diabetes e apoio familiar, os pacientes podem estudar, trabalhar, praticar esportes, viajar, engravidar, envelhecer e ter excelente qualidade de vida.
“Pessoas que vivem com DM1 bem controlado, especialmente com o avanço no conhecimento sobre a doença e na tecnologia utilizada no tratamento, podem ter uma expectativa de vida próxima à da população geral, sem restrições quanto a escolhas em sua vida pessoal ou profissional”, complementa Iguchi.
Maiara Ribeiro é jornalista e integra a redação do Portal Drauzio Varella desde 2018. Tem interesse principalmente em assuntos relacionados à primeira infância, saúde mental, longevidade e bem-estar.
FONTE: https://drauziovarella.uol.com.br/doencas-cronicas/diabetes/mais-comum-em-criancas-diabetes-tipo-1-exige-manejo-diario-mas-nao-impede-qualidade-de-vida/?utm_id=97757_v0_s00_e0_tv2_a1demonlevj1mq&fbclid=IwY2xjawS1HjVleHRuA2FlbQIxMQBzcnRjBmFwcF9pZBAyMjIwMzkxNzg4MjAwODkyAAEeNRf3nB7UkZXO4K8GqhgPwvouuezNvCQghM_9f_qMPLTRYqbLe8LXlQqhPG4_aem_Ti04ZpDtuY9qw4fnK0_46A
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Carla
Aviso médico: As informações deste artigo têm caráter exclusivamente educativo e não substituem a consulta com médico e/ou nutricionista. Cada pessoa tem necessidades individuais , busque sempre orientação profissional antes de
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