
Dalton Franklin Almeida convive com doença celíaca desde 2011 e recebeu o diagnóstico de diabetes tipo 2 em 2019. Hoje, organiza a alimentação e monitora a glicemia para conciliar as duas condições. – Crédito: Arquivo Pessoal
A dieta sem glúten pode elevar o índice glicêmico da alimentação. Dalton Almeida descobriu isso da pior forma, depois de desenvolver diabetes tipo 2.
Dalton Franklin Almeida é jornalista, tem 57 anos e convive com dois diagnósticos que mudaram completamente sua relação com a comida: doença celíaca e diabetes tipo 2. A doença celíaca surgiu primeiro, por volta de 2011. Já o diabetes veio anos depois, em 2019. E foi justamente a mudança alimentar exigida pela primeira condição que, sem que ele percebesse, abriu caminho para a segunda.
“Como a mudança de alimentação para o celíaco é muito grande, eu não fiquei atento aos riscos”, reflete Dalton. “Só o glúten já é um nível de restrição muito grande. Se você inclui o açúcar, fica ainda maior.”
A frase resume um problema que afeta milhares de brasileiros: ao eliminar o glúten, muitas pessoas substituem o trigo por produtos ultraprocessados com alto índice glicêmico, e acabam abrindo a porta para o diabetes.
A armadilha glicêmica da dieta sem glúten
Eliminar o glúten da dieta não é simples. O trigo está presente em pães, massas, biscoitos, molhos e até em itens improváveis como embutidos e condimentos. Nesse contexto, a solução mais comum no mercado são os produtos “sem glúten” — que substituem a farinha de trigo por amidos como polvilho, tapioca, arroz e batata.
No entanto, esses substitutos costumam ter índice glicêmico (IG) significativamente mais alto do que o trigo integral. A tapioca, por exemplo, um dos alimentos mais populares na dieta de celíacos, tem IG próximo de 85 — considerado muito alto. O pão francês convencional, por comparação, fica em torno de 70. Em outras palavras: quem troca o pão pela tapioca sem atenção pode estar aumentando o impacto glicêmico da refeição.
Além disso, muitos produtos industrializados sem glúten contêm mais açúcar e gordura para compensar a textura e o sabor perdidos com a retirada do trigo. O resultado é uma alimentação que, ainda que isenta de glúten, pode ser nutricionalmente desequilibrada e, ao longo do tempo, contribuir para o desenvolvimento do diabetes tipo 2.
Atenção: A
substituição do glúten por amidos refinados — como polvilho, tapioca e
farinha de arroz — pode elevar significativamente o índice glicêmico da
dieta. Quem tem doença celíaca deve monitorar não apenas o glúten, mas
também a qualidade nutricional dos alimentos substitutos.
Celíacos têm mais risco de desenvolver diabetes tipo 1
Do ponto de vista científico, a relação entre doença celíaca e diabetes não é única. No caso do diabetes tipo 1, existe uma ligação autoimune bem estabelecida: ambas as doenças são provocadas pelo sistema imunológico atacando tecidos do próprio organismo — o intestino delgado, no caso da celíaca, e o pâncreas, no diabetes tipo 1.
Diante disso, estudos mostram que o diagnóstico de doença celíaca em pessoas com diabetes tipo 1 é até 20 vezes superior ao da população em geral. Aproximadamente 6% das pessoas com DM1 têm doença celíaca — motivo pelo qual entidades médicas internacionais recomendam o rastreio da condição em todos os pacientes com diabetes tipo 1.
Já no caso do diabetes tipo 2, como o de Dalton, a associação genética não existe. No entanto, a conexão pode surgir por outro caminho: o estilo de vida. Pessoas celíacas que não recebem orientação nutricional adequada tendem a adotar uma alimentação rica em carboidratos refinados e pobre em fibras — um padrão que, combinado a fatores como sedentarismo e predisposição genética, favorece o desenvolvimento do DM2.
O que é a doença celíaca e por que ela exige tanta atenção
A doença celíaca é uma disfunção intestinal autoimune causada por hipersensibilidade permanente ao glúten — uma combinação de proteínas presentes no trigo, aveia, centeio, cevada e malte. Quando a pessoa celíaca consome glúten, o sistema imunológico reage, causando inflamação e dano à mucosa do intestino delgado.
Ainda assim, nem todos os celíacos apresentam sintomas visíveis. Em casos assintomáticos, a doença pode avançar silenciosamente, causando alterações sorológicas e histológicas sem sinais clínicos aparentes. Por isso, o tratamento nutricional deve ser iniciado assim que o diagnóstico é confirmado, mesmo na ausência de sintomas.
A orientação é que a exclusão do glúten seja total e permanente. Isso inclui atenção a contaminações cruzadas: usar o mesmo óleo de fritura para alimentos com e sem glúten, ou a mesma faca para passar manteiga em pão comum e depois em biscoito sem glúten, pode ser suficiente para desencadear uma reação.
Viver com celíaca e diabetes tipo 2 ao mesmo tempo
Para Dalton, o desafio diário vai além das restrições alimentares. Trata-se de gerenciar dois diagnósticos que, em vários pontos, se contradizem nas soluções práticas do dia a dia. Muitos alimentos recomendados para diabéticos contêm glúten. E muitas alternativas sem glúten são inadequadas para quem precisa controlar a glicemia.
“Desde janeiro estou voltando ao eixo. E agora levo marmita todos os dias para o trabalho e assim ajudar no controle”, conta o jornalista.
A estratégia de preparar a própria comida é uma das mais recomendadas por nutricionistas para quem precisa conciliar as duas condições — já que permite controle total sobre os ingredientes.
Nesse contexto, a adoção de um sensor contínuo de glicose pode ser uma ferramenta importante. Dalton já utilizou o dispositivo anteriormente — que permite o monitoramento em tempo real da glicemia e facilita a identificação de alimentos que provocam picos glicêmicos, mesmo quando são isentos de glúten. Agora, ele voltará a usar o sensor para aprimorar o controle e tornar o acompanhamento mais preciso.
Dicas práticas para quem tem celíaca e quer evitar o diabetes
Para quem tem doença celíaca, a prevenção do diabetes tipo 2 passa por escolhas alimentares conscientes. Veja os principais pontos de atenção:
- Prefira farinhas e amidos com menor índice glicêmico, como farinha de amêndoas, farinha de grão-de-bico, polvilho azedo (em menor quantidade) e farinha de aveia certificada sem glúten.
- Combine sempre carboidratos com proteínas e gorduras boas — isso reduz o impacto glicêmico da refeição.
- Leia os rótulos dos produtos sem glúten com atenção: além do glúten, verifique a quantidade de açúcar, amido modificado e aditivos.
- Monitore sua glicemia regularmente, especialmente se houver histórico familiar de diabetes ou sobrepeso.
- Busque acompanhamento com nutricionista especializado em doença celíaca e controle glicêmico — as restrições combinadas exigem planejamento individualizado.
- Pratique atividade física regularmente: além de controlar a glicemia, o exercício melhora a saúde intestinal e a qualidade de vida geral.
Um alerta que veio tarde para Dalton, mas pode chegar a tempo para você
A história de Dalton serve de alerta para milhões de brasileiros com doença celíaca. Segundo a Federação Nacional das Associações de Celíacos do Brasil (FENACELBRA), cerca de 2 milhões de pessoas convivem com a condição no país. No entanto, muitos ainda não receberam diagnóstico.
Quando o médico identifica e trata corretamente a doença celíaca — com dieta rigorosa e suporte nutricional —, os sintomas tendem a desaparecer em poucas semanas. Além disso, o controle glicêmico pode melhorar de forma significativa.
Portanto, se você tem doença celíaca ou suspeita do diagnóstico, não basta retirar o glúten. É essencial avaliar os substitutos e manter equilíbrio nutricional. Assim, você evita que a solução para uma condição se transforme em risco para outra.
Jornalista com quase 30 anos de experiência em televisão no interior de São Paulo, atuando como coordenadora de conteúdo e responsável por produção de pautas. Atualmente é produtora executiva na TB Content.
FONTE: https://umdiabetico.com.br/2026/02/25/celiaco-pode-desenvolver-diabetes-entenda-a-relacao-entre-as-duas-condicoes/

obs. conteúdo meramente informativo procure seu médico
abs.
Carla







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